21 de mai de 2017

Cristo verdadeiramente ressuscitou?

Há cinco diferentes argumentos que são utilizados para questionar a Ressurreição de Cristo: 

1. Os anjos poderiam ter feito o mesmo que Cristo fez
Depois da sua ressurreição, Cristo não manifestou nada aos discípulos que também não pudessem os anjos manifestar ou fazer, quando aparecem aos homens, pois os anjos frequentemente se mostravam aos homens em forma humana, com eles falavam, conviviam e comiam como se verdadeiramente fossem homens. Tal o lemos na Escritura quando refere que Abraão deu hospitalidade a anjos; e que um anjo levou e reconduziu a Tobias. E contudo não tem corpo real a que estejam unidos naturalmente. o que é necessário para a ressurreição. 

RESPOSTA: Embora cada uma das provas, em particular, não bastasse para manifestar a ressurreição de Cristo, contudo todas tomadas simultaneamente a manifestam de modo perfeito, sobretudo pelo testemunho da Escritura, pelas palavras dos anjos e também pela afirmação mesma de Cristo confirmada por milagres. Quanto aos anjos que apareceram, não afirmavam que fossem homens como Cristo se afirmou verdadeiramente homem. O anjo disse a Tobias: Quando eu estava convosco, a vós parecia-vos que eu comia e bebia convosco, mas eu sustento-me de um manjar invisível. Segundo Santo Agostinho, o corpo ressucitado fica isento não do poder, mas da necessidade de comer. E São Beda completa: Cristo comeu por poder e não por necessidade.

2. Cristo parecia humano
Certas manifestações de Cristo foram contrárias a um corpo glorioso, como comer, beber e conservar as cicatrizes das chagas. Logo, não parce que Cristo tenha ressuscitado de forma gloriosa e perfeita, pois seu corpo ainda guardava fraquezas humanas.

RESPOSTA: Como dissemos Cristo se serviu de várias provas para manifestar a sua verdadeira natureza humana; e de outras para mostrar a sua natureza gloriosa. É certo que a condição da natureza humana, considerada em si mesma, no estado da vida presente, contraria à condição da glória, segundo o Apóstolo: Semeia-se em vileza, ressuscitará em glória. Por isso diz São Gregório, há dois fatos muito contraditórios aos olhos da razão humana: Cristo conservar, depois da ressurreição, o seu corpo simultaneamente incorruptível e capaz de ser tocado. Mas não há razão para aceitar apenas os aspectos humanos do corpo ressucitado de Cristo e não aceitar os aspectos gloriosos do mesmo corpo.

3. Nem todos podiam tocar a Cristo
O corpo de Cristo depois da ressurreição não era tal que pudesse se tocado pelos mortais; por isso ele próprio disse a Madalena: Não me toques porque ainda não subi a meu Pai. Logo, não era conveniente que, para manifestar a verdade da .sua ressurreição, se deixasse tocar por todos.

RESPOSTA: Como adverte Santo Agostinho, o Senhor disse: Não me toques porque ainda não subi a meu Pai, por que Madalena, chorando-o como homem, só carnalmente cria nele, enquanto Cristo preferia que fosse considerado na sua unidade com o Pai, para que quem nEle tocasse, acreditasse nEle de modo espitual. Ou como o explica São Crisóstomo, essa mulher queria tratá-lo como o Cristo antes da Paixão, esquecia-se da grandeza do seu Salvador; pois, o corpo de Cristo tinha-se revestido de uma glória incomparável. Era como se lhe dissesse: Não penses que ainda vivo uma vida mortal. Se ainda na terra me vês, é porque ainda não subi a meu Pai; mas dentro em pouco para ele subirei. 

Também disse para que essa mulher figurasse a Igreja formada pelos gentios, que só acreditou em Cristo quando ele subiu ao Pai. Porque, no seu senso íntimo, quem assim o considera, crê que de certo modo Cristo, subindo ao Pai, subiu a quem o reconhece como seu igual.  

4. O corpo de Cristo não era glorioso
Dentre os dotes do corpo glorificado o mais importante é a luminosidade. Ora, desse não tem Cristo não nenhuma prova nos Evangelhos desta luz especial. 

RESPOSTA: Como diz Santo Agostinho, o Senhor ressurgiu com seu corpo glorificado; mas não quis aparecer assim glorioso aos discípulos, porque os olhos a ele não podiam suportar a grande glória. Pois, antes de ter morrido por nós e ressurgido, quando foi da transfiguração no monte, já os discípulos não puderam contemplá-lo; com maior razão não poderiam fitar o corpo do Senhor glorificado. 

Devemos também considerar que, depois da ressurreição, o Senhor queria sobretudo mostrar que era o mesmo que tinha morrido. O que poderia ficar grandemente impedido se lhes manifestasse a glória do seu corpo. Antes da Paixão a fim de que os discípulos não o desprezassem pelas humilhações dela, quis Cristo mostrar-lhes a glória da sua majestade, revelada principalmente pela glória do corpo, Por isso, antes da Paixão, manifestou aos discípulos a sua glória refulgente; depois da ressurreição, por outros indícios.


5. Os Evangelhos se contradizem quanto ao testemunho dos anjos
Os anjos são apresentados como testemunhas da ressurreição, mas os Evangeliistas contam histórias diferentes. Assim, Mateus nos mostra o anjo sobre a pedra revolvida e Marcos, no interior mesmo do túmulo, quando as mulheres nele entraram. Além disso, esses dois evangelistas nos falam de um só anjo; ao passo que João, de dois, sentados; e Lucas, de dois também, mas de pé. Logo, parecem inconvenientes os testemunhos da ressurreição.

RESPOSTA: Como diz Agostinho, podemos, com Mateus e Marcos, entender que as mulheres viram um anjo, supondo que o foi quando entraram no túmulo, isto é, num certo espaço cercado por um muro de pedras, e aí viram o anjo sentado na pedra revolvida do sepulcro, como refere Mateus; isto é, sentado à direita, como requer Marcos. Em seguida, enquanto examinavam o lugar onde tinha colocado o corpo do Senhor, viram os dois anjos, primeiro, sentados, no dizer de João, e depois levantados, de modo que pareciam estar de pé, como relata Lucas.

-- adaptado da Suma Teológica, Tertia Pars, questão 54, artigo 6, de São Tomás de Aquino.

As provas de que Cristo verdadeiramente ressuscitou

Cristo manifestou a sua ressurreição de dois modos: pelo testemunho e por provas ou sinais. 

Primeiro serviu-se de duplo testemunho para manifestar a ressurreição aos discípulos, e nenhum deles pode ser recusado. 

  • Os anjos anunciaram a ressurreição às mulheres, como o narram todos os evangelistas.  
  • Outro é o seu próprio testemunho, pois Ele afirma sua ressurreição.

Quanto às provas, também foram suficientes para declarar a sua verdadeira ressurreição, mesmo enquanto gloriosa. Ora, que a sua ressurreição foi verdadeira ele o demostrou com seu corpo que:

Cristo comendo com seus apóstolos após a pesca milagrosa. 
  • era um corpo verdadeiro e real, e não um corpo fantástico ou rarefeito, como o ar. E isso o mostrou deixando que o tocassem. Por isso, ele próprio o disse: Apalpai e vede, que um espírito não tem carne nem ossos, como vós vedes que eu tenho
  • tinha um corpo humano. deixando verem os discípulos a sua verdadeira figura. que contemplavam com os olhos. 
  • era o corpo identicamente o mesmo que antes tinha, mostrando-lhes as cicatrizes das chagas. Cristo diz, no Evangelho: Olha para as minhas mãos e pés, porque sou eu mesmo

De outro modo, mostrou-lhes a verdade da sua ressurreição quanto à alma, de novo unida ao corpo, de três maneiras diferentes:

  • pela nutrição, comendo e bebendo com os discípulos, como lemos no Evangelho. 
  • pelos sentidos, quando respondia às interrogações dos discípulos e saudava os presentes, mostrando assim que via e ouvia. 
  • pela inteligência, pois os discípulos com ele falavam e Cristo explicava suas dúvidas falando sobre as Escrituras. 

E para nada faltar a essa perfeita manifestação, revelou também a sua natureza divina pelo milagre feito na pesca maravilhosa e, além disso, por ter subido ao céu à vista dos discípulos. Pois, como diz o Evangelho, ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu, a saber, o Filho do homem,que está no céu. 

E também manifestou a glória da sua ressurreição aos discípulos por ter entrado numa sala estando as portas fechadas. Tal o que diz Gregório: "O Senhor deu a tocar o seu corpo, que entrava estando as portas fechadas, para mostrar que, depois da ressurreição, tinha a mesma natureza mas com uma glória diferente". Semelhantemente, também foi por uma propriedade da glória, que de súbito desapareceu-Ihes de diante dos olhos, na frase do Evangelho; pois, assim mostrava que tinha o poder de deixar-se ver ou não, e isso é uma propriedade do corpo glorioso, como dissemos.

* No próximo post, Santo Agostinho rebate as dúvidas que ainda possam existir acerca da ressurreição de Cristo.

-- adaptado da Suma Teológica, Tertia Pars, questão 54, artigo 6, de São Tomás de Aquino.


17 de mai de 2017

Os cristãos no mundo

São Paulo pregando em Atenas, de Rafael (1515)
Os cristãos não se diferenciam dos outros homens nem pela pátria nem pela língua nem por um gênero de vida especial. De fato, não moram em cidades próprias, nem usam linguagem peculiar, e a sua vida nada tem de extraordinário. A sua doutrina não procede da imaginação fantasista de espíritos exaltados, nem se apoia em qualquer teoria simplesmente humana, como tantas outras.

        Moram em cidades gregas ou bárbaras, conforme as circunstâncias de cada um; seguem os costumes da terra, quer no modo de vestir, quer nos alimentos que tomam, quer em outros usos; mas o seu modo de viver é admirável e passa aos olhos de todos por um prodígio. Habitam em suas pátrias, mas como de passagem; têm tudo em comum como os outros cidadãos, mas tudo suportam como se não tivessem pátria. Todo país estrangeiro é sua pátria e toda pátria é para eles terra estrangeira. Casam-se como toda gente e criam seus filhos, mas não rejeitam os recém-nascidos. Têm em comum a mesa, não o leito.

        São de carne, porém, não vivem segundo a carne. Moram na terra, mas sua cidade é no céu. Obedecem às leis estabelecidas, mas com seu gênero de vida superam as leis. Amam a todos e por todos são perseguidos. Condenam-nos sem os conhecerem; entregues à morte, dão a vida. São pobres, mas enriquecem a muitos; tudo lhes falta e vivem na abundância. São desprezados, mas no meio dos opróbrios enchem-se de glória; são caluniados, mas transparece o testemunho de sua justiça. Amaldiçoam-nos e eles abençoam. Sofrem afrontas e pagam com honras. Praticam o bem e são castigados como malfeitores; ao serem punidos, alegram-se como se lhes dessem a vida. Os judeus fazem-lhes guerra como a estrangeiros e os pagãos os perseguem; mas nenhum daqueles que os odeiam sabe dizer a causa do seu ódio.

        Numa palavra: os cristãos são no mundo o que a alma é no corpo. A alma está em todos os membros do corpo; e os cristãos em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, mas não provém do corpo; os cristãos estão no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível é guardada num corpo visível; todos veem os cristãos, pois habitam no mundo, contudo, sua piedade é invisível. A carne, sem ser provocada, odeia e combate a alma, só porque lhe impede o gozo dos prazeres; o mundo, sem ter razão para isso, odeia os cristãos precisamente porque se opõem a seus prazeres.

        A alma ama o corpo e seus membros, mas o corpo odeia a alma; também os cristãos amam os que os odeiam. Na verdade, a alma está encerrada no corpo, mas é ela que contém o corpo; os cristãos encontram-se detidos no mundo como numa prisão, mas são eles que abraçam o mundo. A alma imortal habita numa tenda mortal; os cristãos vivem como peregrinos em moradas corruptíveis, esperando a incorruptibilidade dos céus. A alma aperfeiçoa-se com a mortificação na comida e na bebida; os cristãos, constantemente mortificados, veem seu número crescer dia a dia. Deus os colocou em posição tão elevada que lhes é impossível desertar.

-- Da Carta a Diogneto, autor desconhecido (século II)

9 de mai de 2017

Como era o Corpo Ressuscitado de Cristo?

O corpo ressuscitado de Cristo teve a mesma natureza do corpo humano, tudo o que pertence à natureza do corpo humano existiu totalmente no corpo de Cristo ressuscitado. Ora, é manifesto que da natureza do corpo humano fazem parte as carnes, os ossos, o sangue e atributos semelhantes. Tudo isso existiu no corpo de Cristo ressuscitado pois do contrário a ressurreição não seria perfeita, se não se reintegrasse tudo o que se desagregou pela morte. Considere que o Senhor fez aos seus fiéis a seguinte promessa: Até os mesmos cabelos da vossa cabeça, todos eles estão contados (Mt 10,30; Lc 12,7). E noutro lugar: Não se perderá um cabelo da vossa cabeça (Lc 21,8).

Quanto a afirmar que o corpo de Cristo não tinha carne nem ossos nem as demais partes naturais ao corpo humano, isso constitui o erro de Entíquio, bispo da cidade de Constantinopla. Dizia ele que o nosso corpo, na glória da ressurreição, será impalpável e mais leve que o vento e o ar. E que o Senhor, depois de ter confirmado o coração de seus discípulos, fazendo-os lhe apalpar o corpo, tornou então imaterial tudo o que antes nele podia ser tocado. 

São Gregório Magno refutou esta doutrina argumentando que o corpo de Cristo não sofreu depois da ressurreição nenhuma mudança, pois, se é inadmissível que Cristo tivesse recebido, na sua concepção, um corpo não-humano, digamos, celeste, como Valentiniano afirmava, muito mais inadmissível é que, na ressurreição, reassumisse um corpo de natureza diferente, pois que o corpo reassumido na ressurreição, para a vida imortal, foi o mesmo que assumiu, na concepção, para a vida mortal. Reconhecendo seu erro, Entíquio retratou-se antes de morrer.

Alguns persistem achando que Cristo ressuscitado era um espírito imaterial, sem carne nem ossos. Esta dúvida foi esclarecida pelo próprio Cristo: Observai as minhas mãos e meus pés e vede que Eu Sou o mesmo! Tocai-me e comprovai o que vos afirmo. Por que um espírito não tem carne nem ossos, como percebeis que Eu tenho (Lc 24, 39). Mas como a corpo de Cristo não sofreu a decadência natural, mas foi visto por cinquenta dias após sua morte? Para explicar este milagre, São Paulo afirma: Nem a corrupção herdará a incorruptibilidade (1Cor 15,50). É fato que Deus todo-poderoso, com relação às propriedades visíveis e palpáveis dos corpos, pode manter algumas e privar os corpos de outras, conforme quiser; de sorte que guardem a sua forma exterior sem nenhuma falha ou corrupção, o movimento sem a fadiga, o poder de comer sem a necessidade. de nutrir-se, como relatam os evangelistas.

Por fim, cabe dizer quanto ao sangue conservado por certas Igrejas como relíquias, esse não correu do lado de Cristo; mas é considerado como tendo jorrado milagrosamente de alguma imagem sua, objeto de qualquer violência, não afetando, portanto a integridade do corpo ressuscitado. 

-- adaptado da Suma Teológica, Tertia Pars, questão 54, artigo 2, de São Tomás de Aquino.

18 de abr de 2017

Era necessário Cristo ressucitar?

Ressurreição de Cristo, de Rafael Sanzio (cc. 1500).
Acervo do MASP.

Era necessário que Cristo ressuscitasse, por cinco razões:


Para a manifestação da justiça divina, a qual compete exaltar aos que se humilham por amor de Deus, segundo aquilo do Evangelho: Depôs do trono os poderosos e elevou os humildes (Lc 1,52). Tendo, pois, Cristo, levado pela caridade e obediência, se humilhado até à morte da cruz, importava que  fosse exaltado por Deus até a ressurreição gloriosa. 

Para confirmação da nossa fé, pois, a sua ressurreição confirmou a nossa fé na divindade de Cristo. Como diz o Apóstolo: Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação, é também vã a nossa fé (1Cor 15,14). E noutro lugar diz a Escritura: Que proveito há no meu sangue, i. é, na efusão do meu sangue, se desço à corrupção, como que por degraus de males?(Sl 29) Quase se respondesse: Nenhum. Pois, se não ressurgir logo e se me corromper o corpo, a ninguém anunciarei, ninguém seria beneficiado.

Para sustentar a nossa esperança, pois, vendo Cristo ressuscitar, ele que é nossa cabeça, esperamos que também nós ressuscitaremos. Donde o dizer o Apóstolo: Se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns entre vós outros que não há ressurreição de mortos? (1Cor 15,2) E noutro lugar da Escritura: Eu sei, isto é, pela certeza da fé, que o meu Redentor, isto é, Cristo vive, tendo ressurgido dos mortos, e portanto, eu no derradeiro dia surgirei da terra: esta minha esperança esta depositada no meu peito. (Jó 19,25-27)

Para nos dar um modelo pelo qual possamos regular a nossa vida, segundo fala o Apóstolo: Como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Padre, assim também nós levemos uma vida nova (Rm 6,4). E mais abaixo: Tendo Cristo ressurgido dos mortos, já não morre, nem a morte terá sobre ele mais domínio; assim também vós considerai-vos que estais certamente mortos ao pecado, porém vivos para Deus (Rm 9, 11)

Para complemento da nossa salvação, pois, assim como sofreu tantos males e morreu, para dos males nos livrar, assim também foi glorificado ressurgindo, para nos dar a posse do bem, segundo o Apóstolo: Foi entregue por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação. (Rm 4, 25)

-- adaptado da Suma Teológica (Tertia Pars, questão 53), São Tomás de Aquino

8 de abr de 2017

Vamos participar da festa da Páscoa

Vamos participar da festa da Páscoa, por enquanto ainda em figuras, embora mais claramente do que na antiga lei (a Páscoa legal era, por assim dizer, uma figura muito velada da própria figura). Mas, em breve, participaremos de modo mais perfeito e mais puro, quando o Verbo vier beber conosco o vinho novo no reino de seu Pai, revelando definitivamente o que até agora só em parte nos mostrou. A nossa Páscoa é sempre nova.

Qual é essa bebida e esse conhecimento? A nós compete dizê-lo; e ao Verbo compete ensinar e comunicar essa doutrina a seus discípulos. Porque a doutrina daquele que alimenta é também alimento.

Quanto a nós, participemos também dessa festa ritual, não segundo a letra mas segundo o Evangelho; de modo perfeito, não imperfeito; para a eternidade, não temporariamente. Seja a nossa capital, não a Jerusalém terrestre, mas a cidade celeste; não a que é agora arrasada pelos exércitos, mas a que é exaltada pelo louvor e aclamação dos anjos.

Sacrifiquemos não novilhos ou carneiros com chifres e cascos, vítimas sem vida e sem inteligência; pelo contrário, ofereçamos a Deus um sacrifício de louvor sobre o altar celeste, em união com os coros angélicos. Atravessemos o primeiro véu, aproximemo-nos do segundo e fixemos o olhar no Santo dos Santos.

Direi mais: imolemo-nos a Deus, ou melhor, ofereçamo-nos a ele cada dia, com todas as nossas ações. Façamos o que nos sugerem as palavras: imitemos com os nossos sofrimentos a Paixão de Cristo, honremos com o nosso sangue o seu sangue, e subamos corajosamente à sua cruz.

Se és Simão Cireneu, toma a cruz e segue a Cristo.

Se, qual o ladrão, estás crucificado com Cristo, como homem íntegro, reconhece a Deus. Se por tua causa e por teu pecado ele foi tratado como malfeitor, torna-te justo por seu amor. Adora aquele que foi crucificado por tua causa. Preso à tua cruz, aprende a tirar proveito até da tua própria iniquidade. Adquire a tua salvação com a sua morte, entra com Jesus no paraíso, e saberás que bens perdeste com a tua queda. Contempla as belezas daquele lugar, e deixa que o ladrão rebelde fique dele excluído, morrendo na sua blasfêmia.

Se és José de Arimatéia, pede o corpo a quem o mandou crucificar; e assim será tua a vítima que expiou o pecado do mundo. Se és Nicodemos, aquele adorador noturno de Deus, unge-o com perfumes para a sua sepultura.

Se és Maria, ou a outra Maria, ou Salomé, ou Joana, derrama tuas lágrimas por ele. Levanta-te de manhã cedo, procura ser o primeiro a ver a pedra do túmulo afastada, e a encontrar talvez os anjos, ou melhor ainda, o próprio Jesus.

-- Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, bispo (século IV)

17 de mar de 2017

Os milagres que salvaram a vida de São Bento

São Bento foi fundamental para a Igreja Católica por que em torno do ano de 540 organizou a vida de monges e monjas, com regras que ainda são utilizadas hoje em dia. Até então, monges viviam isolados, longe das cidades, mendigando, indo para onde desejassem e rezando conforme lhes aprazia, o que nem sempre resultava em bons exemplos. 

São Bento (de Núrsia) nasceu em 480
e faleceu em 547.
São Bento instituiu os monastérios sob a responsabilidade de um abade ou abadessa, os três votos - castidade, pureza e obediência - e uma vida em comunidade que combinava horas de orações com momentos de trabalho em favor de todos.  Embora levasse uma vida santa, por duas vezes teve sua vida ameaçada e salva por milagres.

Certa ocasião, o abade de um monastério morreu e os monges convidaram o santo para assumir a função. Como era seu hábito, impôs as suas regras, o que desgostou os monges que estavam acostumados com uma vida mais livre e tranquila. Decidiram então matar São Bento envenenando o vinho que ele consagraria na Missa. Mas ao fazer o Sinal da Cruz, o cálice se partiu em pedaços, derramando todo o vinho, e salvando o Santo.

Em outra ocasião, um padre que morava perto do monastério caiu no pecado da inveja, por que seus paroquianos admiravam mais o Santo do que a ele. Este padre enviou-lhe um pão envenenado. Na época o Santo tinha o hábito de dar migalhas de pão a um corvo que fizera ninho próximo ao monastério. Avisado em sonho que o pão que receberia estava envenenado, naquele dia o Santo foi até o pátio, recomendou à ave que não comesse do pão, mas que o depositasse em frente à porta do padre, que assim soube que seu plano falhara.

Então o padre resolveu desacreditar São Bento enviando sete mulheres nuas para o Monastério. Novamente a idéia lhe foi revelada por milagre, temendo por seus monges mais jovens ou fracos, pediu que todos se reunissem em oração. Mas o padre não conseguiu completar seus planos, pois o teto da casa em que morava desabou sobre sua cabeça, matando-o. Um dos monges soube do acontecimento e correu alegre para contar ao santo. Este repreendeu-lhe duramente, pois o padre havia morrido em pecado e sua alma estava em perigo grave, este não era um bom motivo para alegria. Ao monge impôs dura penitência e foi até a Igreja onde o tal padre era pároco para celebrar a Missa e pedir por sua alma. 

Embora pareçam improváveis, estes milagres foram narrados por São Gregório Magno, doutor da Igreja, que sucedeu São Bento como abade do Monastério de Monte Cassino, antes de ser eleito Papa. 

-- autoria própria

26 de fev de 2017

Três parábolas: o joio e o trigo; o grão de mostarda e o fermento

O capítulo 13 de Mateus é uma sequência de 7 parábolas muito conhecidas. Esta catequese é sobre três delas (Mt 13, 24-43):


O joio e o trigo: Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo; Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se. E, quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o joio. E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: Senhor, não semeaste tu, no teu campo, boa semente? Por que tem, então, joio?

E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres pois que vamos arrancá-lo? Ele, porém, lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro.


O grão de mostarda: Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando nele, semeou no seu campo. O qual é, realmente, a menor de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas, e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos.


O fermento: Outra parábola lhes disse: O reino dos céus é semelhante ao fermento, que uma mulher toma e introduz em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado. Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas. 


Explicação do joio e do trigo: Para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta, que disse: Abrirei em parábolas a minha boca; Publicarei coisas ocultas desde a fundação do mundo. Então, tendo despedido a multidão, foi Jesus para casa. E chegaram ao pé dele os seus discípulos, dizendo: Explica-nos a parábola do joio do campo. E ele, respondendo, disse-lhes: O que semeia a boa semente, é o Filho do homem; O campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do reino; e o joio são os filhos do maligno; O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos. 


Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniqüidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Jesus está falando em parábolas, pequenas histórias com uma moral, para que todos possam entender mais facilmente suas lições. Talvez não sejam óbvias para os nossos tempos, onde a maioria trabalha nas cidades, não em plantações, nem assa seus pães. Mas eram tarefas diárias, de homens e mulheres que precisavam conhecer bem as plantações e alimentos para sobreviver.

Joio e trigo

Trigo e joio, notou a diferença? 
A parábola do trigo e o joio inicia com o bom semeador plantando o trigo, então o inimigo planta o joio. O problema é que, no princípio, não há como separar as duas plantas, elas são idênticas. Como o joio tem raízes muito espalhadas, arrancá-lo inicialmente irá trazer junto o trigo, que tem raízes menos profundas. Então o plantador pede para que os funcionários tenham paciência, pois o tempo irá tornar o trabalho mais fácil. Conforme o trigo amadurece, as plantas carregadas de grãos verga, se inclina, pois está pesado. O joio, no entanto, desenvolve apenas uns grãos muito pequenos, sem o peso, permanece ereto. Além disso, as raízes do joio se aprofundam ainda mais, enquanto o trigo, com raízes superficiais, está quase caindo; muito fácil de separar o joio e o trigo.

O trigo caído, o joio não se curva.
Jesus mesmo diz que ambos representam as pessoas, alguns são bons, outros seguem o mal. Mas o dono da lavoura, Deus, diz que é preciso esperar que amadureçam, pois no final dos tempos, será fácil separar os bons dos maus. Os trabalhadores na lavoura, todos os questão na Igreja, são convidados a esperar, não julgar nem usar de violência, pois perderão os bons, embora a intenção seja boa, os resultados não são agradáveis a Deus. 

Além disso, enquanto o joio e o trigo são o que são pela sua natureza, e podem apenas seguir sua natureza, os homens podem escolher, mudar, converter-se em novos homens, novo trigo; ou escolher o mal, tornando-se joio. Deus criou a humanidade, ele é o bom semeador que age no início, e também é que agirá no final quando julgar aos homens, aqui na terra não é nossa tarefa julgar a ninguém, mas amar ao próximo e esperar que possa ser dar bons frutos.

Outra analogia possível diz que o trigo se verga na presença de Deus, humilde, pronto a dar seu fruto em favor do povo e Deus. O joio, orgulhoso, permanece reto, como o diabo que o semeou. Embora desagrável, mesmo o joio tem sua utilidade: ele serve para alimentar o fogo do forno onde os pães são cozidos. Sem as tribulações e problemas do mundo, não há como o cristão amadurecer, ser sinal no mundo.

O grão de mostarda

Um grão de mostarda
O grão de mostarda é realmente pequeno, a menor das sementes, mas floresce muito rápido, produz arbustos grandes. É como a Igreja, que iniciou com 12 apóstolos num cantinho do Império Romano, e hoje está presente em quase todos os lugares. 

Ainda, a mostarda não é uma planta que possa ser plantada no jardim por que as sementes caem, florescem facilmente e novas plantas nascem, quase sem controle do plantador. Na época, era plantada no lado de fora, não necessariamente muito bem vista, outro sinal do que seria a Igreja no mundo. 
A árvore de mostarda, onde os pássaros
podem repousar.

Mas na sua sombra todos os pássaros buscam refúgio, a humanidade pode buscar na Igreja o repouso dos seus problemas do mundo. Não o excesso de atividade, mas na calma de uma árvore que está lá para prover o tempero do mundo com o qual a comida, a vida, fica melhor ainda.

O fermento

O pão precisa apenas um pouquinho de fermento para crescer, em excesso põe o trabalho a perder. Depois que o processo inicia, o pão começa a crescer, é imparável e não há mais nada a fazer, apenas esperar que o pão ficará pronto. Como imagem da Igreja, lembre que não precisa muito para melhorar o mundo, apenas poucos missionários e fiéis já podem ajudar na salavação de muitos.

Um ponto interessante é quanto a quantidade. A Igreja não precisa de muitas palavras, mas nunca devemos esquecer o essencial, o Kerigma: Deus nos deu seu único Filho, Jesus Cristo, que morreu pelos nossos pecados, venceu a morte, e ressuscitou abrindo as portas do Céu para todos nós.

Conclusão

Por fim, uma palavra de Santo Agostinho: Eu vos contarei uma verdade, meus queridos, mesmo nos mais altos cargos há tanto trigo como joio. Que o bom tolere o mal, que o mal se transforme e imite o bom.  Vamos todos alcançar a Deus, vamos todos escapar do mal deste mundo por sua Misericórdia. Vamos procurar bons dias, pois estamos agora entre os maus, contudo, em maus dias, não blasfememos para que possamos alcançar os bons. 

-- este texto é quase uma transcrição da catequese dada por Márcia Fornari no Curso sobre o Evangelho de São Mateus, na minha paróquia.


18 de fev de 2017

São Jerônimo e a tradução da Bíblia

São Jerônimo nasceu na Dalmácia, próximo a atual capital da Eslovênia, provavelmente no ano de 347, em uma família com boas condições financeiras que pode custear seus estudos. 
São Jerônimo em seu estúdio, pintado por
Domenico Ghirlandaio (1480)

Em torno do ano 360 foi enviado a Roma para estudar retórica e filosofia, também aprendeu latim e um pouco de grego para ler os autores clássicos na língua original. Em Roma conheceu a fé católica, mas tinha a vida despreocupada de um jovem, cometendo os pecados habituais da juventude, como ele mesmo relatou em seus escritos. 

Quando enfim converteu-se, passou a ter um vida asceta, viajou para a Alemanha a fim de estudar Teologia, até decidir por uma vida de eremita nos desertos da Síria. Em um sonho, foi advertido por Deus que deveria abandonar totalmente a leitura dos poetas clássicos e se concentar unicamente em livros teológicos. Com o auxílio de judeus convertidos, aprendeu o hebraico e conheceu a versão hebraica do Velho Testamento e Evangelhos. 

Em 378 ou 379 foi ordenado em Antioquia e viajou para Constantinopla onde estudou as Sagradas Escrituras com São Gregório Nazianzeno. Em 382 foi a Roma para participar de um Concílio que discutiria a composição da Bíblia. Na capital permaneceu por três anos, auxiliando o Papa Dâmaso e traduzindo o Novo Testamento do grego para o latim. Suas catequeses atraíram algumas mulheres ricas para uma vida de austeridade e oração, incluindo Santa Paula, mas, no geral, tornaram-no antipático para a maioria do povo.

Em agosto de 385, Jerônimo partiu para a Terra Santa, passando a morar próximo de Belém até sua morte em 420. Graças a caridade, em especial de Santa Paula, podia adquirir muitos livros, o que foi essencial para a sua grande herança: uma nova tradução da Bíblia. 

A tradução da Bíblia

Até aquele momento, todas as traduções para o latim dos livros do Antigo Testamento eram baseadas em livros gregos, a chamada versão dos Setenta (ou Septuaginta). A Bíblia dos Setenta foi traduzida do hebraico para o grego por rabinos morando em Atenas, por cerca de 200 anos (300 AC-100 AC), ou seja, muitos se envolveram no trabalho, a qualidade variava bastante e algumas idéias da sociedade grega se infiltraram no texto. Acrescente-se a possibilidade de erros na tradução adicional do grego para o latim e a qualidade do texto resultante não era ideal.

Ao compararem a versão latina com o texto hebraico e identificarem notáveis diferenças, os estudiosos da época tomaram uma posição muito curiosa: os judeus estariam alterando os textos para confundir os católicos. 

Foi neste ponto que São Jerônimo tomou uma decisão fundamental: não apenas utilizou os textos hebraicos originais, abandonando a tradução dos Setenta, como pediu auxílio aos rabinos de Jerusalém para compreender as passagens mais difíceis. Em várias cartas, São Jerônimo dedicou-se a explicar suas escolhas e, muitas vezes, recomendava que consultassem os rabinos acerca do Velho Testamento pois eles conheciam o texto melhor que muitos cristãos. 

A tradução de São Jerônimo, chamada Vulgata, no início foi duramente criticada pois diferia bastante dos livros utilizados na época. Santo Agostinho, que também tinha estudado os textos clássicos e falava latim e grego, foi fundamental pelo apoio que deu a São Jerônimo ao notar a qualidade do trabalho. Por fim, a Vulgata foi plenametne aceita na Igreja e utilizada ao longo dos séculos, servindo de base para as primeiras traduções em outras línguas, inclusive as de Martinho Lutero e outros protestantes. Apenas nos séculos XIX e XX, com o uso de técnicas mais de tradução e novos achados arqueolóogicos, que o trabalho de São Jerônimo começou a ser aprimorado, mas certamente ainda é uma influência fundamental na Bíblia que lemos diriamente.

-- autoria própria

7 de fev de 2017

O sacrifício de Abraão

Abraão tomou a lenha do sacrifício e colocou-a sobre os ombros de seu filho Isaac. Tomou na mão o fogo e o cutelo, e foram ambos juntos. Ora, Isaac, carregando a lenha para o próprio holocausto, é uma figura de Cristo carregando sua cruz. No entanto levar a lenha para o holocausto é ofício de sacerdote. Torna-se então ele mesmo a vítima e o sacerdote. O que se segue: e foram ambos juntos refere-se a essa realidade, porque Abraão, como sacrificador, leva o fogo e o cutelo; mas Isaac não vai atrás e sim a seu lado, para que se veja que, juntamente com ele, exerce igual sacerdócio.

         E depois? Disse Isaac a seu pai Abraão: Pai! Neste momento, uma palavra assim parece uma tentação. Como terá abalado o coração paterno esta palavra do filho que ia ser imolado! Mesmo endurecido pela fé, Abraão responde com voz branda: Que queres, filho? E ele: Vejo o fogo e a lenha, mas onde está a ovelha para o holocausto? Abraão respondeu: Deus providenciará uma ovelha para o holocausto, meu filho.

         Impressiona-me a resposta cuidadosa e prudente de Abraão. Não sei o que via em espírito, pois responde olhando para o futuro e não para o presente: Deus mesmo providenciará uma ovelha. Assim fala do futuro ao filho que indaga pelo presente. O Senhor providenciava para si um cordeiro em Cristo.

         Abraão estendeu a mão para pegar a faca e imolar o filho. O anjo do Senhor chamou-o do céu, dizendo: Abraão, Abraão. Respondeu ele: Eis-me aqui. Tornou o anjo: Não toques no menino nem lhe faças nenhum mal. Agora sei que temes a Deus.

         Comparemos estas palavras com as do Apóstolo a respeito de Deus: Ele não poupou seu Filho, mas entregou-o por todos nós. Vede Deus rivalizando com os homens em magnífica generosidade. Abraão, mortal, ofereceu a Deus o filho mortal, que não morreria então. Deus entregou à morte por todos o Filho imortal.

         Olhando Abraão para trás, viu um carneiro preso pelos chifres entre os espinhos. Dissemos acima, creio, que Isaac figurava Cristo e, no entanto, também o carneiro parece figurar Cristo. É muito importante ver como ambos se relacionam a Cristo: Isaac que não foi morto e o carneiro que o foi. Cristo é o Verbo de Deus, mas o Verbo se fez carne.

         Padece, portanto, Cristo, mas, na carne; morre enquanto homem do qual o carneiro é figura; já dizia João: Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. O Verbo, porém, permanece incorrupto, isto é, Cristo segundo o espírito; a imagem deste é Isaac. Por isto ele é vítima e também pontífice segundo o espírito. Pois aquele que oferece a vítima ao Pai, segundo a carne, este mesmo é oferecido no altar da cruz.

-- Das Homilias sobre o Gênesis, de Orígenes, presbítero (século III)

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