25 de set de 2017

Homília sobre a avareza e o rico (Lc 12,16-21)

Dupla é a espécie da tentação: de um lado, as tribulações que põem à prova o coração como o ouro no crisol (cf. Sb 3,6) mostram quanto há nelas de bom na prática da paciência; de outro lado, a própria prosperidade da vida, que para a maior parte das pessoas se torna freqüentemente uma prova, dado que é igualmente difícil manter-se seguro o ânimo nas adversidades e não se deixar dominar pelo orgulho e pela arrogância no meio das dificuldades. Exemplo da primeira espécie de tentação é o grande Jó, campeão imbatível, que suportou os violentos assaltos do demônio, semelhantes ao ímpeto de uma torrente, com ânimo imperturbável e com propósito irremovível; e nas tentações tanto se mostrou superior, quanto maiores e árduas apareciam as lutas que empreendeu com o adversário.

Das tentações que derivam da prosperidade da vida, temos muitíssimos exemplos: entre outros, aquele rico cuja história acabamos de ler. Este homem, além das riquezas que possuía, desejava ainda outras. A misericórdia de Deus, ao invés de condená-lo imediatamente por sua ingratidão, às riquezas de antes ajuntava sempre novas, querendo com isso convidá-lo a ser liberal e benigno, uma vez saciado abundantemente. "As terras de um rico - diz, de o Evangelho - deram uma abundante colheita. E ele refletia consigo mesmo: Que farei? Demolirei meus celeiros e construirei outros maiores" (Lc 12,16-18). 

Por que deram tão abundante colheita as terras daquele homem que, na abundância, não soubera tirar nenhum proveito? Para que melhor aparecesse a longanimidade de Deus, a bondade daquele que se estende também a este. Deus, de fato, "faz chover sobre justos e injustos e faz nascer o sol sobre os bons e os maus" (Mt 5,45). Tal bondade de Deus, porém, acumula sobre a cabeça dos maus maiores castigos. Ela faz cair a chuva sobre o campo cultivado por mãos avaras e dá o sol que aquece a semente e multiplica abundantemente os frutos. 

A generosidade de Deus 
Eis quanto provém de Deus: fertilidade do solo, condições atmosféricas propícias, abundância das sementes, a ajuda dos bois e outros elementos que contribuem para o incremento da agricultura. 

E da parte do homem? Dureza de coração, misantropia e avareza: é dessa maneira que o homem agradece ao próprio benfeitor. Não se recordou da comunhão de natureza, não pensou que precisava dividir o supérfluo entre os indigentes, não levou em conta o mandamento: "Não negues um benefício ao necessitado" (Pr 3,27). "A caridade e a confiança não te abandonem" (Pr 3,3). "Reparte o pão com o faminto" (Is 58,7). Permaneceu surdo ao grito de todos os profetas e de todos os mestres. 

A avareza do homem 
Os celeiros, pequenos demais para abrigar tanta abundância, são destruídos, mas o coração avaro não estava satisfeito. Com o advento de novas riquezas às antigas e com os proventos de cada ano, aumentava a abundância. Estava o homem rico neste dilema, do qual não sabia como desembaraçar-se: não queria desfazer-se dos velhos, por avareza; não podia recolher o novo, por causa da abundância. Por isso, atormentava-se sem chegar a nenhuma conclusão: "Que farei?". Quem não se comoveria por um homem assim atormentado? Consternado pela prosperidade, é um mísero pelos bens que possui; mais mísero ainda pelos que viriam. 

Se a terra não lhe produz os proventos, cai em gemidos constantes. Se se acumulam frutos abundantes? Aflições, penas, angústias cruéis! Lamenta-se como um pobre. Não exclama, talvez, da mesma maneira de quem está na indigência? "Que farei? O que comerei? Como me vestirei?"

Assim vai repetindo, em alta voz, o rico. Leva no coração o tormento, a ansiedade o aflige, porque aquilo que a outros torna alegres, consome pela preocupação o avaro. A casa está abarrotada de tudo, porém, ele não se alegra. Pelo contrário, aqueles bens que afluem de todas as partes e que transbordam os celeiros torturam-lhe a alma por temor de que, escapando para fora alguma migalha, os necessitados possam se aproveitar delas. 

Parece-me que a paixão destes se assemelha à dos glutões, que preferem arrebentar-se pela voracidade antes que deixar alguma sobra aos necessitados. 

O homem é administrador dos dons divinos 
Reconhece, ó homem, o teu doador. Recorda-te de ti mesmo: quem sou, que coisa administra, de quem recebeste, porque foste preferido entre muitos. És servidor da bondade de Deus, administrador dos teus companheiros de servidão. Não creias que tudo seja destinado a teu ventre. Considera os bens que estão nas tuas mãos como coisa de outros: por breve tempo alegram-te, depois deslizam e desaparecem rapidamente; àeles deverás prestar contas pormenorizadas. 

Embora tenhas tudo bem fechado com portas trancadas, amarrado e selado, todavia, as preocupações te impedem o sono. Ruminas dentro de ti, estulto conselheiro de ti mesmo: "Que farei?". Seria, ao invés, ocasião de dizer: saciarei quem tem fome, abrirei meus celeiros e chamarei todos os indigentes. Imitarei o benéfico edito de José: "Quantos não tenham pão, vinde a mim; tome cada um o suficiente do dom concedido por Deus, como de uma fonte comum" (Gn 47,13-26).

Por que não és assim também tu? Tens medo de que outros tirem proveito destes bens e, ruminando na alma sentimentos maus, meditas, não tanto como distribuir a cada um segundo a necessidade, mas como ajuntar ainda mais bens e tirar de todos os proventos para ti. 

Já haviam chegado aqueles que lhe pediriam a alma (cf. Lc 12,20) e ele confabulava consigo sobre alimentação; naquela mesma noite o levariam deste mundo (cf. Lc 12,20) e ele fantasiava gozar ainda por muitos anos. Foi-lhe deixado desejar tudo, expressar seu pensamento, para que seu propósito sofresse a sentença que merecia. 

Exortação aos ricos 
Toma cuidado para que não te aconteça o mesmo! Estas coisas foram escritas para que evitemos semelhante destino. Imita a terra, ó homem, e produz frutos à sua semelhança: não sejas pior que a criatura inanimada. A terra produz frutos não para o proveito próprio, antes para tua sustentação. Tu, no entanto, qualquer fruto de bondade que produzires, recolherás para teu proveito, dado que o mérito das boas obras se reverte para os doadores. Deste ao faminto? O dom se volta para ti e te é restituído com juros. Como o trigo lançado à terra transforma-se em lucro para aquele que o semeou, assim o pão dado ao fa- minto te renderá, a seu tempo, lucro abundante. Põe fim, pois, ao cultivo dos campos e começa a semear para o céu, porque está escrito: "Semeai para vós sementes de justiça" (Os 10,12). 

A generosidade é uma glória para o homem 
"Muito melhor um nome bom que grandes riquezas" (Pr 22,1). Se, pois, as riquezas te parecerem uma grande coisa pela honra que delas deriva, reflete quanto é mais vantajosamente honrável ser chamado pai de inumerá- veis filhos do que ter dinheiro na bolsa. Esta a deixarás aqui, quer queiras quer não; ao invés, a honra conquistada com as boas obras a levarás contigo à face do Senhor, quando todo o povo reunido em torno de ti diante do juiz comum te aclamará provedor, benfeitor e te dará todos os títulos da caridade. Não vês aqueles que gastam o dinheiro nos teatros, nos pugilatos, nas cenas burlescas, nas lutas com as feras -gente que ninguém deveria olhar no rosto? -e tu és tão mesquinho em distribuir, enquanto uma glória bem mais elevada te espera? Deus saberá te acolher, os anjos te louvarão, os homens, todos quantos existiram desde a criação, te aclamarão bem-aventurado. Uma glória eterna, uma coroa de justiça, o reino dos céus serão para ti o prêmio pela distribuição destes bens caducos. Não mais te ocuparás com eles: substitui o empenho pelos bens presentes, por aqueles que esperamos. Coragem, pois! Dispõe generosamente das tuas riquezas, sê ambicioso e generoso no dispensar a quem tem necessidade. Que se possa dizer de ti: "É generoso, distribui de boa vontade aos pobres, a sua justiça permanece para sempre" (Sl 111,9). Não vendas a preço muito alto aproveitando da necessidade, não esperes a carestia para abrir os celeiros, porque "o povo maldiz quem retém o trigo" (Pr 11,26). Não socorrer os famintos por causa do ouro, nem a penúria geral para poderes estar na abundância é inadmissível; não te faças desfrutador das desgraças humanas. Não faças da ira de Deus uma ocasião para aumentar tuas riquezas. Não tornes mais dolorosas as chagas de quem foi golpeado pelos flagelos. 

Tu, ao invés, fixas os olhos no ouro, mas não olhas em face o irmão. Sabes reconhecer a marca da moeda e distinguir a falsa da verdadeira, porém ignoras completamente o irmão necessitado.  

-- parte I da Homília sobre a riqueza e a avareza,  São Basílio (século IV)

12 de set de 2017

Estarei atento para ouvir o que me diz o Senhor

São Bernardo de Claraval, nasceu em 1090,
morreu em 20 de Agosto de 1153
Lemos no Evangelho que, quando o Senhor em sua pregação convidava os discípulos a participarem do mistério de comer o seu corpo também os exortava a comungar de sua paixão, alguns disseram: É dura esta palavra; e já não mais ficaram com ele. Interrogados os discípulos se também eles queriam ir-se embora, responderam: Senhor, a quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna (Jo 6,68).

Digo-vos, irmãos, que até hoje para alguns é evidente serem as palavras faladas por Jesus espírito e vida e por isso seguem-no. Para outros parecem duras e vão em busca de outra miserável consolação. A Sabedoria as repete bem alto nas praças, na larga e espaçosa estrada que leva à morte, para chamar a si os que caminham por ela.

Até mesmo Quarenta anos estive próximo desta geração e disse: Sempre se extraviam pelo coração (Sl 94,10). Encontras também em outro salmo: Uma vez falou Deus (cf. Sl 61,12). Sim, uma vez, porque sempre. É um só e não alterado, mas contínuo e perpétuo seu falar.

Convida os pecadores a novamente entrarem em si, censura pelo erro do coração para que aí habite ele e aí fale, realizando aquilo que ensinou pelo profeta ao dizer: Falai ao coração de Jerusalém (Is 40,2).  

Bem vedes, irmãos, como é proveitosa a exortação do Profeta a não endurecermos o coração, se ouvirmos hoje sua voz. Quase as mesmas palavras podeis ler no Evangelho e no Profeta. Ali diz o Senhor: Minhas ovelhas ouvem minha voz (Jo 10,27). E o santo Davi no salmo: Seu povo (do Senhor, sem dúvida) e ovelhas de suas pastagens, hoje se ouvirdes sua voz, não endureçais os vossos corações (Sl 94,7-8).  

Escuta, por fim, o profeta Habacuc, como não disfarça a censura do Senhor, mas se entrega a contínua e solícita reflexão sobre ela: Estarei de atalaia, fincarei pé no meu reduto para ver o que me dirá e o que responderei a quem me repreende (Hab 2,1). Também nós, irmãos, suplico, estejamos de atalaia porque o tempo é de luta.  

Entremos em nossos corações, onde Cristo habita, comportando-nos com justiça e prudência, de tal forma, porém, que não ponhamos em nós mesmos a confiança nem nos apoiemos em tão frágil proteção.

-- Dos Sermões de São Bernardo, abade (século I)

7 de set de 2017

Aqueles que creêm em Deus abandonam seus antigos costumes

Aqueles com quem vivemos trazem antiquíssimas inimizades com outros [índios] da mesma nação, e por isso de uma ou outra parte se declara e se aceita frequentemente a guerra, para a qual concorrem muitos de diversos lugares; assim, mesmo estando nós entre eles, partiram contra os inimigos.

Um dia antes de entrarem no combate, os que vinham de outros lugares, começaram a oferecer sacrifícios a seus feiticeiros, a quem chamam de pajés, interrogando-os sobre o que lhes sucederia no conflito. Não só os batizados, mas também outros a quem a palavra de Deus já fora semeada, perguntados se queriam dar créditos àquelas mentiras, responderam que não, e que traziam seu Deus no coração, em cujo auxílio confiavam que alcançariam vitória maior do que com sacrifícios imundos.

Tendo eles entrado em combate e aparecendo a imensa multidão de inimigos, muitos abalados pelo medo e terror, começaram a perder o ânimo. Vendo isso, uma mulher já batizada, que era esposa do chefe da aldeia e partira com ele para a guerra, aconselhou a todos que fizessem o sinal da cruz para perder o temor. Assim revigorados, os inimigos foram desbaratados e dispersos. Dos nossos catecúmenos, nenhum foi feito prisioneiro pelos inimigos, que costumam matá-los e comê-los. 

Aqueles feiticeiros de que já falei são tidos por eles em grande estima, por que chupam os outros quando são acometidos de alguma dor e, assim, os livram das doenças e afirmam que tem poder sobre a vida e a morte. Nenhum deles comparece diante de nós, por que descobrimos seus embustes e mentiras. Ocorreu que um destes feiticeiros foi convidado pelo filho de um dos cristãos à sua casa para que o curasse. Ao saber o que fizera seu filho, o pai o repreendeu asperamente, dizendo que não poderia entrar novamente na Igreja e seria assado pelo demônio por dar crédito aos feiticeiros.

Outra criança de quatro ou cinco anos, assaltada de grave enfermidade, rogava muitas vezes em prantos à sua mãe que a levasse ao templo, e gemendo em frente ao altar, pedia em sua própria língua: "Ó Padre curai-me!". Interrogada pelo seu pai se queria que chamassem um dos feiticeiros para aplicar os remédios da tribo, chorando com grande lamentos lançou-se por terra, dizendo que não, que com o auxílio de Deus recuperaria a saúde. O Senhor operou um certo remédio, que aplicado pelos irmãos da Companhia [de Jesus], recobrou a tão esperado saúde do menino.

Esperamos que ainda se colherão muitas graças e favores divinos, frutos dos obreiros de Deus que enviaste para esta tão fecunda vinha, para o maior benefício de Deus. Aqui habitamos presentemente com o Reverendo em Cristo Padre Manuel da Nóbrega, sete irmãos separados da convivência dos portugueses, aplicados tão somente à doutrina dos índios. Temos também conosco alguns índios que abominam os costumes da tribo, pondo em tudo amor ao Pai. Louvor e glória a Deus, de quem todo bem procede.

-- trechos de uma carta de São José de Anchieta escrita em setembro de 1554, quando estava em Piratininga, no atual estado de São Paulo

1 de set de 2017

Convertei-vos a mim de todo coração

Profeta Joel, um dos 12 profetas "menores", cujo
nome significa "aquele queesta com Deus".
Convertei-vos a mim de todo o vosso coração (Jl 2,12) e mostrai o arrependimento do espírito por jejuns, lágrimas e gemidos. Para que, jejuando agora, vos sacieis mais tarde; chorando agora, riais depois; gemendo agora, sejais depois consolados.É costume nas tristezas e adversidades rasgar as vestes. Isso fez o Sumo Pontífice para aumentar a acusação contra o Senhor Salvador, segundo conta o Evangelho e fizeram Paulo e Barnabé ao ouvir as palavras de blasfêmia. Assim eu vos ordeno, não rasgueis as vestimentas,mas os corações que estão cheios de pecados, porque quais odres, se não forem rasgados, se romperão por si mesmos. Tendo assim agido,voltai ao Senhor nosso Deus, a quem vossos pecados anteriores vos fizeram afastar-vos. Não desespereis do perdão pela gravidade das culpas, pois grande misericórdia apagará grandes pecados.
  
Pois ele é benigno e misericordioso, preferindo a penitência dos pecadores à morte; paciente, de imensa misericórdia, que não imita a impaciência humana, mas espera por longo tempo nossa conversão condescendente ou arrependido do mal que intentara. Se fizermos penitência dos pecados, ele se arrependerá de suas ameaças e não nos fará vir os males que prometeu. Com a mudança de nosso intento, também ele mudará. Não devemos entender aqui “mal” como contrário à virtude e sim como aflição, conforme lemos em outro passo: Basta a cada dia seu mal. E: Se houver na cidade mal que o Senhor não tenha enviado.  

Da mesma forma, por ter dito acima ser benigno e misericordioso, paciente e de imensa misericórdia, condescendente ou arrependido do mal, para que talvez a grande clemência não nos torne negligentes, acrescenta por intermédio do Profeta: Quem sabe se não voltará atrás e perdoará, e deixará após si uma bênção? (Jl 2,13-14). Eu, diz ele, exorto à penitência, pois é o meu dever, e sei que Deus é indizivelmente clemente. Testemunha é Davi: Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a tua grande misericórdia e segundo a multidão de tua compaixão apaga minha iniquidade (Sl 50,1.3). Como, porém, não podemos conhecer a profundidade das riquezas, da sabedoria e da ciência de Deus, amenizo a afirmação e prefiro desejar a presumir, dizendo: Quem sabe se não voltará atrás e perdoará? Dizendo quem sabe, quer significar ser impossível ou difícil.  

Sacrifício e libação ao Senhor nosso Deus (cf. Jl 2,14). Depois de ter-nos dado a bênção e perdoado nossos pecados, somos capazes de oferecer hóstias ao Senhor.

-- Do comentário sobre o profeta Joel, de São Jerônimo, presbítero (século V)

20 de ago de 2017

Sobre o dogma da Assunção de Nossa Senhora em Corpo e Alma.



Introdução 

Deus munificentíssimo (generoso), que tudo pode, e cujos planos de providência são cheios de sabedoria e de amor, entremeia na vida os povos e dos indivíduos as dores com as alegrias, para que por diversos caminhos e de várias maneiras tudo coopere para o bem dos que o amam (cf. Rm 8,28).


De fato, Deus olhou para a virgem Maria com particular amor, quando chegou o tempo de Jesus Cristo tornar-se homem (Gl 4,4) atuou de forma que refulgissem com perfeita harmonia os privilégios e prerrogativas que concedera a Maria. A Igreja sempre reconheceu a muitas graças concedidas a nossa mãe e durante o decurso dos séculos sempre procurou estudá-la melhor. Nestes nossos tempos refulgiu com luz mais clara o privilégio da assunção corpórea da Mãe de Deus.

Esse privilégio foi ainda mais destacado quando o nosso predecessor, Pio IX, definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição. De fato esses dois dogmas estão estreitamente conexos entre si. Cristo com a própria morte venceu a morte e o pecado, e todo aquele que pelo batismo de novo é gerado, sobrenaturalmente, pela graça, vence também o pecado e a morte. Porém Deus, por lei ordinária, só concederá aos justos o pleno efeito desta vitória sobre a morte, quando chegar o fim dos tempos. Por esse motivo, os corpos dos justos corrompem-se depois da morte, e só no último dia se juntarão com a própria alma gloriosa.

Mas Deus quis excetuar dessa lei geral a bem-aventurada virgem Maria. Por um privilégio inteiramente singular ela venceu o pecado com a sua concepção imaculada; e por esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem teve de esperar a redenção do corpo até ao fim dos tempos.

Testemunho dos fiéis

Desde tempos remotos aparecem-nos testemunhos, indícios e vestígios desta fé comum da Igreja; fé que se manifesta cada vez mais claramente. Os fiéis souberam por meio da Sagrada Escritura que a virgem Maria, durante a sua peregrinação terrestre, levou vida cheia de cuidados, angústias e sofrimentos; e que, segundo a profecia do santo velho Simeão, uma espada de dor lhe traspassou o coração, junto da cruz do seu divino Filho e nosso Redentor. E do mesmo modo, não tiveram dificuldade em admitir que, à semelhança do seu unigênito Filho, também a excelsa Mãe de Deus morreu. Mas essa persuasão não os impediu de crer expressa e firmemente que o seu sagrado corpo não sofreu a corrupção do sepulcro, nem foi reduzido à podridão e cinzas aquele tabernáculo do Verbo divino. Testemunham esta mesma fé os inumeráveis templos consagrados a Deus em honra da assunção de nossa Senhora, e as imagens neles expostas à veneração dos fiéis, que mostram aos olhos de todos este singular triunfo da santíssima Virgem. Nem se esquecer que no rosário de nossa Senhora, há um mistério proposto à nossa meditação, que, como todos sabem, é consagrado à assunção da santíssima Virgem ao céu. 

Testemunho da liturgia

De modo se manifesta esta fé dos pastores e dos fiéis, com a festa litúrgica da assunção celebrada desde tempos antiquíssimos no Oriente e no Ocidente. Nos livros litúrgicos em que aparece a festa da Dormição ou da Assunção de santa Maria, encontram-se expressões que concordam em referir que, quando a virgem Mãe de Deus passou deste exílio para o céu, por uma especial providência divina, sucedeu ao seu corpo um privilégio especial. É o que se afirma, por exemplo, no Sacramentário do Papa Adriano I: "É digna de veneração, Senhor, a festividade deste dia, em que a santa Mãe de Deus sofreu a morte temporal; mas não pode ficar presa com as algemas da morte aquela que gerou no seu seio o Verbo de Deus encarnado, vosso Filho, nosso Senhor". O Sacramentário Galicano chama a esse privilégio de Maria, "inexplicável mistério, tanto mais digno de ser proclamado, quanto é único entre os homens, pela assunção da virgem". E na liturgia bizantina assim fala: "Deus, Rei do universo, concedeu-vos privilégios que superam a natureza; assim como no parto vos conservou a virgindade, assim no sepulcro vos preservou o corpo da corrupção e o conglorificou pela divina translação".

Testemunho dos santos Padres

São João Damasceno, ao comparar a assunção gloriosa da Mãe de Deus com as suas outras prerrogativas e privilégios, exclama: "Convinha que aquela que no parto manteve ilibada virgindade conservasse o corpo incorrupto mesmo depois da morte". Para citar outro exemplo, São Germano de Constantinopla julgava que a incorrupção do corpo da virgem Maria Mãe de Deus, e a sua assunção ao céu são corolários da sua maternidade divina e santidade singular: "Vós, como está escrito, aparecestes 'em beleza'; o vosso corpo virginal é totalmente santo, totalmente casto, totalmente domicílio de Deus de forma que até por este motivo foi isento de desfazer-se em pó; foi, sim, transformado, enquanto era humano, para viver a vida altíssima da incorruptibilidade; mas agora está vivo, gloriosíssimo, incólume e participante da vida perfeita". Outro escritor antiquíssimo assevera por sua vez: "A gloriosíssima Mãe de Cristo, Deus e Salvador nosso, dador da vida e da imortalidade, foi glorificada e revestida do corpo na eterna incorruptibilidade, por aquele mesmo que a ressuscitou do sepulcro e a chamou a si duma forma que só ele sabe".

São Alberto Magno afirma: "É evidente que a bem-aventurada Mãe de Deus foi assunta ao céu em corpo e alma sobre os coros dos anjos. E cremos que isto é absolutamente verdadeiro". No século XV, São Bernardino de Sena explica que a semelhança entre a divina Mãe e o divino Filho, no que respeita à perfeição e dignidade de alma e corpo - não nos permite pensar que a Rainha celestial possa estar separada do Rei dos céus e exige absolutamente que Maria "só deva estar onde está Cristo". Portanto, é muito conveniente e conforme à razão que tanto o corpo como a alma do homem e da mulher tenham alcançado já a glória no céu; e, finalmente, o fato de nunca a Igreja ter procurado as relíquias da santíssima Virgem, nem as ter exposto à veneração dos fiéis, constitui um argumento que é "como que uma experiência sensível" da assunção.

São Francisco de Sales afirma que não se pode duvidar que Jesus Cristo cumpriu do modo mais perfeito o divino mandamento que obriga os filhos a honrar os pais. E a seguir faz esta pergunta: "Que filho haveria, que, se pudesse, não ressuscitava a sua mãe e não a levava para o céu?" E São Afonso escreve: "Jesus não quis que o corpo de Maria se corrompesse depois da morte, pois redundaria em seu desdouro que se transformasse em podridão aquela carne virginal de que ele mesmo tomara a própria carne". Padre Suarez completa:  "Os mistérios da graça que Deus operou na virgem Maria não se devem medir pelas leis ordinárias, senão pela onipotência divina".

Fundamento bíblico

Todos esses argumentos e razões dos santos Padres e teólogos apóiam-se, em último fundamento, na Sagrada Escritura. Esta nos apresenta a Mãe de Deus extremamente unida ao seu Filho, e sempre participante da sua sorte. E a vida do Filho acabaria com a vitória completa sobre o pecado e sobre a morte (cf. Rm 5; 6; lCor 15,21-26; 54-57). Assim como a ressurreição gloriosa de Cristo constituiu parte essencial e último troféu desta vitória, assim também a vitória de Maria santíssima, comum com a do seu Filho, devia terminar pela glorificação do seu corpo virginal. Pois, como diz ainda o apóstolo, "quando... este corpo mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá o que está escrito: a morte foi absorvida na vitória" (1Cor 15,14). 

Deste modo, a augustíssima Mãe de Deus, alcançou por fim, como coroa dos seus privilégios, que fosse preservada da corrupção do sepulcro, e que, à semelhança do seu divino Filho, vencida a morte, fosse levada em corpo e alma ao céu, onde refulge como Rainha à direita do seu Filho, Rei imortal dos séculos (cf. 1Tm 1,17).

Definição solene do dogma

Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial.

Pelo que, se alguém, o que Deus não permita, ousar, voluntariamente, negar ou pôr em dúvida esta nossa definição, saiba que naufraga na fé divina e católica. A ninguém, pois, seja lícito infringir esta nossa declaração, proclamação e definição, ou temerariamente opor-se-lhe e contrariá-la. Se alguém presumir intentá-lo, saiba que incorre na indignação de Deus onipotente e dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no ano do jubileu maior, de 1950, no dia 1 ° de novembro, festa de todos os santos, no ano XII do nosso pontificado.

Eu PIO, Bispo da Igreja Católica assim definindo, subscrevi.

* A constituição dogmática Munificentissimus Deus foi publicada pelo Papa Pio XII em uso de sua infalibilidade papal definindo o dogma da Assunção de Nossa Senhora em Corpo e Alma. Este é resumo, o texto completo está disponível no site do Vaticano.


1 de ago de 2017

Sobre o amor a Jesus Cristo

Toda santidade e perfeição consiste no amor a Jesus Cristo, nosso Deus, nosso sumo bem e nosso redentor. É a caridade que une e conserva todas as virtudes que tornam o homem perfeito.

Será que Deus não merece todo o nosso amor? Ele nos amou desde toda a eternidade. “Lembra-te, ó homem, – assim nos fala – que fui eu o primeiro a te amar. Tu ainda não estavas no mundo, o mundo nem mesmo existia, e eu já te amava. Desde que sou Deus, eu te amo”.

Deus, sabendo que o homem se deixa cativar com os benefícios, quis atraí-lo ao seu amor por meio de seus dons. Eis por que disse: “Quero atrair os homens ao meu amor com os mesmos laços com que eles se deixam prender, isto é, com os laços do amor”. Tais precisamente têm sido todos os dons feitos por Deus ao homem. Deu-lhe uma alma dotada, à sua imagem, de memória, inteligência e vontade; deu-lhe um corpo provido de sentidos; para ele criou também o céu e a terra com toda a multidão de seres; por amor do homem criou tudo isso, para que todas as criaturas servissem ao homem e o homem, em agradecimento por tantos benefícios, o amasse.

Mas Deus não se contentou em dar-nos tão belas criaturas. Para conquistar todo o nosso amor, foi ao ponto de dar-se a si mesmo totalmente a nós. O Pai eterno chegou ao extremo de nos dar seu único Filho. Vendo-nos a todos mortos pelo pecado e privados de sua graça, que fez ele? Movido pelo imenso, ou melhor – como diz o Apóstolo – pelo seu demasiado amor, enviou seu amado Filho, para nos justificar e nos restituir a vida que havíamos perdido pelo pecado.

Ao dar-nos o Filho, a quem não poupou para nos poupar, deu-nos com ele todos os bens: a graça, a caridade e o paraíso. E porque todos estes bens são certamente menores do que o Filho, Deus, que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo junto com ele? (Rm 8,32).

-- Das Obras de Santo Afonso Maria de Ligório, bispo (século XVII)

29 de jul de 2017

Jesus, minha alegria


Jesu, meine Freude (Jesus, minha alegria) é um hino alemão escrito por Johan Frank em 1650. O texto foi composto a partir do ponto de vista de um fiel, que para enfrentar os inimigos e vaidades do mundo, conta com a proteção de Cristo para sustentar o seu Espírito em todas circunstâncias, contrastando imagens de tranquilidade e felicidade ao lado de Cristo, com as ameaças do Demônio. Sua inspiração é a Carta aos Romanos 8,1-2;9-11, que fala de Jesus Cristo libertando o homem dos pecados e morte.  


Várias composições foram escritas com base no texto, a mais notável é de Bach, que teria sido escrita para o funeral de Johanna Maria Käsin em 18 de Julho de 1723. É justamente esta a versão do vídeo acima.  

O texto, numa tradução livre, é:

1. Jesus, minha alegria,
alimento do meu coração,
Jesus, meu tesouro!
Ah, por quanto tempo
Meu coração tem sofrido
e te desejado!
Cordeiro de Deus, meu noivo,
Além de Ti, nada no mundo
Deve ser mais desejado por mim.

2. Não há nada de condenável
naqueles que estão em Cristo Jesus,
que não caminham de acordo com a carne,
mas deixam o Espírito conduzir seu caminho.

3. Sob a Tua proteção
Estou a salvo das tempestades,
De todos os inimigos.
Deixe Satanás enraivecido,
Deixe o inimigo bufar de raiva,
Jesus está ao meu lado.
Mesmo que haja raios e trovões,
pecados e o Inferno terrível,
Jesus está me protegendo.

4. A Lei do espírito,
que dá vida à Jesus Cristo,
Fez-me livre da Lei
do pecado e da morte.

5. O velho dragão me desafia,
A vingança da morte me desafia,
O medo também me desafia!
O ódio e o mundo me atacam,
Eu permaneço aqui cantando
Em paz e seguro!
A força de Deus está vigilante,
Céus e terra devem permanecer em silêncio,
Por mais que tentem me aterrorizar.

6. Tu, no entanto, não és de carne,
mas foste moldado pelo Espírito,
O Espírito de Deus vive em ti.
No entanto, quem não tiver o Espírito de Cristo, não é dEle.

7. Longe de todos tesouros,
Tu é meu deleite,
Jesus, minha alegria!
Longe de todas honras vãs,
Eu devo passar longe delas,
Devem permanecer desconhecidas para mim!
Miséria, necessidade, torturas, vergonha e morte,
Embora eu deva sofrer muitas delas,
Não podem me separar de Jesus.

8. Se Cristo estiver em ti,
Então o corpo está morto para o pecado,
Mas vive em ti o Espírito de vida,
Que te manterá na justiça.

9. Boa noite, existência
que deseja o mundo!
Tu não me agradas.
Boa noite, pecados,
Fiquem longe de mim,
Nunca mais retornem a luz!
Boa noite, orgulho e glória!
A ti, vida miserável e corrompida,
Boa noite deve ser dado!

10. Agora que o Espírito de Deus que ressuscitou Jesus dos mortos está sobre ti,
O mesmo que ressuscitou Jesus dos mortos irá fazer teu corpo mortal viver,
pelo poder do Espírito que está sobre ti.

11. Pois agora os espíritos da tristeza,
Estão derrotados pelo Mestre da Alegria,
Jesus que veio a nós.
Para aqueles que amam a Deus,
Mesmo em suas tribulações,
Deve ser pura felicidade.
Mesmo que tenha que suportar a zombaria e vergonha,
Tu estás ao meu lado mesmo no sofrimento,
Jesus, minha alegria.

-- autoria própria
-- tradução livre feita a partir do inglês, não do original alemão.

21 de jul de 2017

Sobre as correntes de oração

Queridos amigas e amigos:
Preocupado com as constantes correntes de oração que me enviam, envolvendo trabalho, prosperidade, anjos, Nossa Senhora e Madre Teresa de Cálcuta, entre outras coisas, comorações lindas, mas sempre condicionando os efeitos a enviar para outras pessoas num período de alguns dias, para que possam continuar circulando, pedi ao Padre Adolfo Franco que me desse sua opinião sobre o assunto. Eis a sua resposta:
“Estas correntes de oração são uma ABERRAÇÃO que vai contra a fé, é querer manipular a Providência de Deus, que por ser Deus atua livremente e que não está sujeito a condições impostas pelos homens, como 'envie a dez pessoas', nem está enviando ameaças, tipo 'se não enviares, acontecerá o contrário e perderá a saúde ou dinheiro'.
E muito ruim que pessoas que deveriam uma formação cristã mais sólida enviem estas correntes: a fé cristão remove estas ameaças e não aceita estes tabus.
Poderia ler, entre outros textos, Deuteronômio 18, 10-12: 'Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos, pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor; e por estas abominações o Senhor teu Deus os lança fora de diante de ti.'
Estas fórmulas se utilizam nas correntes de oração estão, na verdade, convertendo Deus em uma receita: faça isto e obterás tal coisa, se não fizeres, uma maldição te atingirá.
Crer em Deus, sua paternidade e providência, é algo muito diferente. Não se trata de assegurarmos coisas mediante nossos esforços, mas confiar e se deixar conduzir pelas mãos de Deus.".

Um abraço e minhas orações.

-- Carta escrita pelo Padre Javier L. de Guevara, assessor espiritual dos Cursilhos de Cristandade, diocese de Córdoba.

18 de jul de 2017

Tudo lhes acontecia em figura

A ti ensina o Apóstolo que todos os nossos pais estiveram debaixo da nuvem e todos atravessaram o mar e todos, conduzidos por Moisés, foram batizados na nuvem e no mar. Em seguida o mesmo Moisés diz no cântico: Enviaste teu espírito e o mar os cobriu. Nota que nesta passagem dos hebreus pelo mar já se prenuncia a figura do santo batismo, onde perece o egípcio, e liberta-se o hebreu. Não é isto o que diariamente o sacramento nos ensina, a saber, que a culpa é afogada, destruído o erro, e a santidade e toda inocência passam através dele?

Ouves que nossos pais estiveram debaixo da nuvem, a boa nuvem que refresca o ardor das paixões carnais, a boa nuvem que cobre com sua sombra aqueles que o Espírito Santo torna a visitar. Esta boa nuvem, em seguida, veio sobre a Virgem Maria e o poder do Altíssimo a envolveu com sua sombra, ao gerar a redenção do homem. Este milagre realizou-o Moisés em figura. Se, portanto, lá esteve o Espírito em figura, não estará aqui a realidade, já que a Escritura te diz que a lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade nos vieram por Jesus Cristo?

Em Mara a fonte era amarga. Nela Moisés mergulhou um lenho e ela se tornou doce. A água, sem a proclamação da cruz do Senhor, não tem utilidade alguma para a futura salvação. Ao ser, porém, consagrada pelo salutar mistério da cruz, é usada no banho espiritual e no cálice da salvação. À semelhança daquela fonte em que Moisés, isto é, o Profeta, pôs o lenho, também nesta fonte o sacerdote proclama a cruz do Senhor e a água se faz doce para a graça.

Não creias apenas nos teus olhos corporais. Enxerga-se muito melhor o que não se vê, porque o que vemos é transitório, isto é terreno. No entanto, se vemos o que os olhos não alcançam, enxergamos com coração e a mente.
Naaman banha-se no Rio Jordão milagrosamente curando-se da lepra.
Na época pensava-se que doenças eram consequencia de pecados cometidos
pelo doente, quanto mais severa a doença, mais graves os pecados.

Por fim ensina-te o trecho do Livro dos Reis: Naaman era sírio, tinha a lepra e ninguém podia purificá-lo. Então disse-lhe uma menina escrava que em Israel havia um profeta, que o poderia curar da lepra. Tomando consigo ouro e prata, Naaman dirigiu-se ao rei de Israel. Conhecendo o rei o motivo da vinda, rasgou as vestes em sinal de luto e declarou que este pedido tão além do poder real era antes um pretexto para um ataque contra o reino. Mas Eliseu mandou dizer ao rei que lhe enviasse o sírio para que lhe fosse dado conhecer como Deus estava em Israel. Tendo ele chegado, o profeta fez-lhe saber que devia mergulhar sete vezes no rio Jordão. Naaman começou, então, a pensar que melhores eram as águas de sua pátria, onde muitas vezes mergulhara e nunca ficara limpo da lepra e quis voltar, sem obedecer à ordem do profeta. Mas, diante do conselho insistente de seus servos, enfim concordou em banhar-se e, limpo no mesmo momento, compreendeu que não era por virtude da água que se tornara purificado, mas pela graça.

Ora, Naaman duvidou antes de ser curado. Tu, porém, já estás são: não podes duvidar!

-- Do Tratado sobre os Mistérios, de Santo Ambrósio, bispo (século IV)

8 de jul de 2017

É necessário o padre dizer "eu te absolvo" após a Confissão?

A perfeição de todo ser ou ato está relacionada à sua forma. Da mesma forma, um sacramento perfeito tem uma forma perfeita, a forma perfeita dos sacramentos é aquela que torna visível o seu efeito. Ora, o sacramento da penitência consiste na remoçãodo pecado, essa remoção é expressa pelo sacerdote quando diz: Eu te absolvo.  Pois, os pecados são como amarras, segundo aquilo da Escritura: O homem será preso por suas próprias faltas e ligado com as cadeias de seu pecado (Pv 5,22). Portanto é claro que esta é a frase é convenientíssima para ressaltar o que acontece na Penitência, que somos libertos de nossos pecados quando ouvimos: Eu te absolvo.

Esta mesma perfeição de forma é visível em outros sacramentos. A forma do batismo é "Eu te batizo"; e a da confirmação "Eu te assinalo com o sinal da cruz e te confirmo com o crisma da salvação". Estas palavras são acompanhadas pelo uso da matéria, da água e dos santos óleos. No sacramento da Eucaristia, a consagração ocorre também com a ajuda da matéria, o pão e vinho, mas a verdade da consagração é expressa quando o sacerdote diz: "Isto é o meu corpo". Mas o sacramento da penitência não consiste na consagração de matéria nenhuma nem utiliza qualquer matéria santificada; mas antes, na remoção do pecado, quando o sacerdote declara: Eu te absolvo.

Agora vamos discutir alguns argumentos contrários e respondê-los:

1. Se Cristo não disse "Eu te absolvo", porque os sacerdotes usam esta frase?

A frase em questão é tirada das próprias pa­lavras que Cristo disse a Pedro: Tudo o que ligares sobre a terra, será ligado nos céus (Mt 18,18). "Eu te absolvo" é a forma que a Igreja utiliza na absolvição sacramental para indicar que os pecados estão desligados - desvinculados - da pessoa.

2. Nas absolvições dadas em público, o padre não diz "Eu te absolvo".


Objeção: No uso comum, em certas absolvições públicas na Igreja, o celebrante não fala no modo indicativo, dizendo "Eu te absolvo", mas em modo de súplica, dizendo "Que Deus oni­potente tenha misericórdia de vós", ou, "Deus onipo­tente vos dê a absolvição". Ainda, o Papa Leão (I) disse: "não podemos obter o perdão de Deus senão pelas súplicas dos sacerdotes".

Resposta: As absolvições dadas em público são orações voltadas à remissão dos pecados veniais. A oração do sacerdote não está, objetivamente, perdoando os pecados cometidos por cada pessoa, mas pedindo a Deus que os absolva. No sacramento da Penitência há algo mais, os pecados são efetivamente perdoados, e isto é confirmado quando o sacerdote declara "Eu te absolvo".

3. Somente Deus pode absolver os pecados


Objeção: Absolver e perdoar são sinônimos. Como diz Santo Agostinho, somente Deus pode perdoar os pecados, purificar-nos interiormente deles Logo, osacerdote não deveria dizer "Eu te absolvo".

Resposta:  Só Deus, pela sua autoridade, pode perdoar os pecados. Os sacerdotes, através do seu minis­tério, são instrumentos de Deus em todos sacramentos. É a virtude divina que realiza a obra interiormente, realizando aquilo que é visível nos sinais sacramen­tais, suas palavras e gestos. Isto é claro pelo que Cristo disse a Pedro: "Tudo o que desatares sobre a terra, etc."; e também aos discípulos: "Aos que vós perdoardes os pecados, ser-­lhes-ão perdoados" (Jo 20, 23). Eu te absolvo está de acordo com as palavras ditas pelo Senhor quando deu o po­der das chaves. Como o sacerdote absolve na qualidade de ministro, se acrescentam palavras concernentes à primária autoridade de Deus, e são: Eu te absolvo em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo; ou seja, por virtude da paixão de Cristo; ou, por autoridade de Deus. Não sendo porém esse acréscimo determinado pelas palavras de Cristo, como no batismo, isso é deixado ao arbítrio dos sacerdotes.

4. Milagres de cura são realizados por Deus, mas parece que o milagre do perdão dos pecados é realizado pelo sacerdote.


Objeção: Assim como o Senhor deu aos discípulos o poder de absolver dos pecados, tam­bém lhes deu o poder de curar as enfermidades e expulsar os demônios. Ora, para curar os enfermos os Apóstolos não pronunciavam as palavras "Eu te curo", mas ­O Senhor Jesus Cristo te cure. Logo, parece que os sacerdotes, recebendo um poder outorgado por Cristo aos Apóstolos, não devem usar da fórmula - Eu te absolvo; mas - Cristo te dê a absol­vição.


Resposta: Aos Apóstolos não foi dado o poder de, por si mesmos, curarem os en­fermos, mas que estes fossem curados pelas ora­ções deles. Foi-lhes porém conferido o poder de celebrar os sa­cramentos. Por onde, nos sacramentos pode usar o modo indicativo - Eu te absolvo - mas quando curar doenças ou expulsam demônios, falam em forma de súplica - Que Deus te cure. Mas isto não é absoluto, às vezes, pois Pedro ordenou ao coxo - O que tenho isso te douEm nome de Jesus Cristo levanta-te e anda.

5. A absolvição dos pecados seria dependente de uma revelação de Deus, que não ocorre comumente a cada confissão. 


Objeção: Como lemos no Evangelho, antes de Cristo ter dito a Pedro: "Tudo o que ligares sobre a terra, etc.", disse-lhe: "Bem-aventurado és, Simão, filho de João, porque não foi a carne e sangue quem te revelou, mas sim meu Pai, que está nos céus (Mt 16, 17)"Assim, parece que o sacerdote, a quem não foi nenhuma feita revelação, diz presunçosamente "Eu te absolvo".


Resposta: Os sacramentos da Lei Nova não só signi­ficam, mas também realizam o que significam, e isto nos assegura a revelação "geral" da nossa fé, não sendo necessária uma revelação particular a cada sacramento.  Quando o sacerdote batiza alguém, o declara interiormente purificado, por palavras e por atos que não somente significam, mas produzem essa purificação; assim também quando diz  "Eu te absolvo", declara o penitente absolvido, não só significativa, mas também efetivamente.   Tanto no batismo quanto na penitência, o sacerdote age com a certeza da fé. Assim também todos outros sacramen­tos da lei nova produzem por si mesmos um efeito, em virtude da paixão de Cristo. 

Ao penitente que acreditar nesta absolvição, os horizontes se abrem. Como exemplo, Santo Agostinho declara: "Não é vergonhosa nem difícil, depois de perpetrado, mas expiado o adultério, a reconciliação dos cônjuges, quando, pelo poder das chaves do reino dos céus, não se tem mais dúvida sobre a remissão dos pecados".

-- adaptado da Suma Teológica, III parte, questão 84, artigo 3, de São Tomás de Aquino


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