27 de out de 2013

Por que Jesus se doa na forma de pão e carne?

Jesus se doa na Eucaristia por nós como um alimento espiritual por que Ele nos ama. O plano de Deus para a nossa salvação é orientado a nossa participação na vida da Santíssima Trindade, estar em comunhão com Pai, Filho e Espírito Santo. 

Nossa parte nesta vida inicia com o Batismo, quando o poder do Espírito Santo nos une a Cristo, tornando-nos filhos e filhas de Deus Pai. É fortalecido pelo sacramento da Confirmação (Crisma); e nutrido e aprofundado pela participação na Eucaristia, ao recebermos o Corpo e Sangue de Cristo, quando nos unimos à pessoa de Cristo através de sua humanidade. Cristo mesmo afirma: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele (Jo 6,56).

Se estamos unidos a Cristo, também estamos, ao mesmo tempo, unidos a sua divindade. Nossa natureza mortal e corruptível é transformada nesta união com a fonte da vida. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim (Jo 6,57).

Se estamos unidos a Cristo, pelo poder do Espírito Santo que habita em nós desde o Batismo, participamos da eterna relação de amor entre o Pai e o Filho. Assim como Jesus é o filho eterno de Deus Pai, nos tornamos filhos e filhas de Deus por adoção através do Batismo.

Através dos sacramentos do Batismo e Confirmação (Crisma), nos tornamos templos sagrados do Espírito Santo, que age em nós, por sua ação podemos nos tornar santos pela graça santificante. 

A mais importante promessa dos Evangelhos é que participaremos da vida da Santíssima Trindade.  Os Padres da Igreja  chamam esta participação de divinização (theosis)

Neste fato vemos que Deus não apenas nos envia presentes agradáveis do alto; ao contrário, somos levados à vida interior de Deus, à comunhão de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Na celebração da Eucaristia, que significação "agradecimento", damos graças e glorificamos Deus por este sublime presente.

-- De um texto da USCCB (United States Conference of Catholic Bishops) sobre a Eucaristia (2001)

-- Tradução própria

24 de out de 2013

No mundo, mas não do mundo

Desejaria exortar-vos a deixar tudo, mas não me atrevo. Se não podeis deixar as coisas do mundo, fazei uso delas de tal modo que não vos prendam a ele, possuindo os bens terrenos sem deixar que vos possuam. Tudo o que possuís esteja sob o domínio do vosso espírito, para que não fiqueis presos pelo amor das coisas terenas, sendo por elas dominados.

Usemos as coisas temporais, mas desejemos as eternas. As coisas temporais sejam simples ajuda para a caminhada, mas as eternas, o termo do vosso peregrinar. Tudo o que se passa neste mundo seja considerado como acessório. Que o olhar do nosso espírito se volte para frente, fixando-nos firmemente nos bens futuros que esperamos alcançar.

Extirpemos radicalmente os vícios, não só das nossas ações mas também dos pensamentos. Que o prazer da carne, o ardor da cobiça e o fogo da ambição não nos afastem da Ceia do Senhor!

Até as coisas boas que realizamos no mundo, não nos apeguemos a elas, de modo que as coisas agradáveis sirvam ao nosso corpo sem prejudicar o nosso coração.

Por isso, irmãos, não ousamos dizer-vos que deixeis tudo. Entretanto, se o quiserdes, mesmo possuindo-as, deixareis todas as coisas se tiverdes o coração voltado para o alto. Pois quem põe a serviço da vida todas as coisas necessárias, sem ser por elas dominado, usa do mundo como se dele não usasse. Tais coisas estão ao seu serviço, mas sem perturbar o propósito de quem aspira às do alto.

Os que assim procedem têm à sua disposição tudo o que é terreno, não como objeto de sua ambição, mas de sua utilidade. Por conseguinte, nada detenha o desejo do vosso espírito, nenhuma afeição vos prenda a este mundo.

Se amarmos o que é bom, deleite-se o nosso espírito com bens ainda melhores, isto é, os bens celestes. Se tememos o mal, ponhamos diante dos olhos os males eternos. Desse modo, contemplando na eternidade o que mais devemos amar e o que mais devemos temer, não nos deixaremos prender ao que existe na terra.

Para assim procedermos, contamos com o auxílio do Mediador entre Deus e os homens. Por meio dele logo obteremos tudo, se amarmos realmente aquele que, sendo Deus, vive e reina com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.

-- Das Homilias sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno, papa (século V)

21 de out de 2013

Salmo 81: Solene convite a renovar a Aliança

Queridos irmãos e irmãs,

"Tocai a trombeta pelo novo mês, na luz cheia, dia da nossa festa" (Sl 81 [80], 4). Estas palavras do Salmo 80, agora proclamado, remetem para uma celebração litúrgica segundo o calendário lunar do antigo Israel. É difícil definir com exatidão a festividade a que o Salmo se refere; é certo que o calendário litúrgico bíblico, embora comece com o fluxo das estações e portanto da natureza, se apresenta firmemente ancorado na história da salvação e, em particular, no principal acontecimento do êxodo da escravidão egípcia, ligado à lua cheia do primeiro mês (cf. Êx 12, 2-6;Lv 23, 5). Com efeito, foi ali que se revelou o Deus libertador e salvador.

Páscoa;
do Altar da Igreja da Ordem Dominicana em Friesach
Como afirma poeticamente o versículo 7 desse mesmo Salmo, foi Deus que tirou dos ombros do hebreu escravo no Egito, a cesta repleta de tijolos, necessários para a construção da cidade de Pitom e Ramsés (cf. Êx 1, 11.14). O próprio Deus pôs-se ao lado do povo oprimido e, com o seu poder, tirou e cancelou o sinal amargo da escravidão, a cesta dos tijolos cozidos ao sol, expressão dos trabalhos forçados a que eram obrigados os filhos de Israel.

Agora, sigamos a evolução deste cântico da liturgia de Israel. Ele abre-se com um convite à festa, ao cântico, à música:  trata-se da convocação oficial da assembleia litúrgica, segundo o antigo preceito do culto, nascido já na terra do Egipto, com a celebração da Páscoa (cf. Sl 81 [80], 2-6). Depois deste apelo, ergue-se a voz do próprio Senhor, através do oráculo do sacerdote no templo de  Sião,  e  estas  palavras  divinas  hão-de  ocupar  todo  o  resto  do  Salmo (cf. vv. 6-17).

O tema que se desenvolve é simples e inclui dois pólos ideais. Por um lado, há o dom divino da liberdade que foi oferecida a Israel oprimido e infeliz:  "Clamaste na opressão, e Eu libertei-te" (v. 8). Existe uma referência também ao apoio que o Senhor ofereceu a Israel, a caminho no deserto, ou seja, ao dom da água em Meriba, num contexto de dificuldade e de provação.

Por outro lado, porém, juntamente com o dom divino, o Salmista introduz outro elemento significativo. A religião bíblica não é um monólogo solitário de Deus, uma sua ação destinada a ficar inerte. Pelo contrário, é um diálogo, uma palavra acompanhada de uma resposta, um gesto de amor que exige adesão.  Por  isso,  reserva-se  um  amplo espaço aos convites que Deus dirige a Israel.

O Senhor convida, em primeiro lugar, à observância do primeiro mandamento, fundamento de todo o Decálogo, ou seja, a fé no único Senhor e Salvador, e a rejeição dos ídolos (cf. Êx 20, 3-5). O discurso do sacerdote em nome de Deus é cadenciado pelo verbo "escutar", querido ao livro do Deuteronómio, que exprime a adesão obediente à Lei do Sinai e constitui um sinal da resposta de Israel ao dom da liberdade. Com efeito, no nosso Salmo ouve-se repetir:  "Escuta, meu povo... Oxalá me ouvisses, Israel! (...) E o meu povo não escutou a minha voz, Israel não quis obedecer-me... Ah, se o meu povo me escutasse! (...) (vv. 9.12 e 14).

É somente através da fidelidade à escuta e à obediência que o povo pode receber plenamente os dons do Senhor. Infelizmente, é com amargura que Deus deve dar-se conta das numerosas infidelidades de Israel. O caminho no deserto, a que o Salmo faz alusão, está totalmente constelado de tais atos de rebelião e de idolatria, que alcançarão o seu ápice na  configuração  do  bezerro  de  ouro (cf. Êx 32, 1-4).

A última parte do Salmo (cf. vv. 14-17) tem uma tonalidade melancólica. Efetivamente, nele Deus exprime um desejo que até agora não foi satisfeito:  "Ah, se o meu povo me escutasse, se Israel  andasse  pelos  meus  caminhos!" (v. 14).

Porém, esta melancolia inspira-se no amor e está ligada a um profundo desejo de cumular de bens o povo eleito. Se Israel caminhasse pelas sendas do Senhor, eles poderiam dar imediatamente a vitória sobre os seus inimigos (cf. v. 15) e nutri-lo "com a flor do trigo" e saciá-lo "com o mel do rochedo" (v. 17). Seria um alegre banquete de pão fresquíssimo, acompanhado do mel que parece correr das rochas da terra prometida, representando a prosperidade e o completo bem-estar, como não raro se repete na Bíblia (cf. Dt 6, 3; 11, 9; 26, 9 e 15; 27, 3; e 31, 20). Com a apresentação desta maravilhosa perspectiva, evidentemente o Senhor procura obter a conversão do seu povo, uma resposta de amor sincero e efectivo ao seu amor, mais generoso do que nunca.

Na leitura cristã, a oferta divina revela a sua amplitude. Com efeito, Orígenes oferece-nos esta interpretação:  o Senhor "fê-los entrar na terra prometida; não os nutriu com o maná, como no deserto, mas com a semente que caiu na terra (cf. Jo 12, 24-25), que renasceu... Cristo é a semente; Ele é também a rocha que, no deserto, saciou o povo de Israel com a água. Em sentido espiritual, saciou-o com o mel, e não com a água, a fim de que quantos acreditarem e receberem este alimento, sintam o mel na sua boca" (Homilia sobre o Salmo 80, n. 17, em: Orígenes-Jerónimo, 74 Homilias sobre o Livro dos Salmos).

Como sempre na história da salvação, a última palavra no contraste entre Deus e o povo pecador nunca é o juízo e o castigo, mas o amor e o perdão. Deus não deseja julgar nem condenar, mas salvar e libertar a humanidade do mal. Ele continua a repetir-nos as palavras que lemos no livro do Profeta Ezequiel:  "Porventura sentirei prazer com a morte do injusto... O que eu quero é ele se converta dos seus maus caminhos, e viva (...) Por que motivo deveríeis  morrer,  casa  de  Israel?  Eu não sinto prazer com a morte de ninguém.  Palavra    oráculo  do  Senhor Deus.  Convertei-vos  e  tereis  a  vida" (18, 23 e 31-32).


A liturgia torna-se o lugar privilegiado onde escutar o apelo divino à conversão e voltar ao abraço do Deus "misericordioso e clemente, lento a encolerizar-se, mas cheio de bondade e de fidelidade" (Êx 34, 6).

-- Papa João Paulo II, na udiência de 24 de Abril de 2002

18 de out de 2013

Adeste Fideles

Adeste Fideles é uma canção de Natal cuja autoria é atribuída ao Rei João IV de Portugal. É certo que dois manuscritos datados de 1640 foram encontrados em seu palácio. O mais provável é que a música seja anterior ao Rei, talvez tenha sido composta por monges cistirciences. A música tornou-se mais conhecida quando foi executada pela primeira vez na Embaixada Portuguesa em Londres, tendo inclusive, sido chamada "Hino Português".

Os textos mais antigos consistem em quatro versos em Latim. Na versão atual, os quatro primeiros versos foram compilados por John Wade em 1740-43; o abade Jean-François Borderies acrescentou três versos em 1822 e o oitavo verso, de autor desconhecido, data de 1850. Em apresentações públicas é habitual omitir versos, pois o hino completo é um tanto longo. O otiavo verso é reservado para a celebração da Epifania. 

Em português a versão mais conhecida é uma adaptação, não uma tradução direta.


 Letra em latim:
1. Adeste Fideles laeti triumphantes,
Venite, venite in Bethlehem.
Natum videte, Regem Angelorum;

Refrão:

Venite adoremus,
venite adoremus,
venite adoremus
Dominum!

2. Deum de Deo, lumen de lumine,
gestant puellae viscera.
Deum verum, genitum non factum; (refrain)

3. Cantet nunc io chorus Angelorum
cantet nunc aula caelestium:
Gloria in excelsis Deo!

4. Ergo qui natus, die hodierna,
Jesu, tibi sit gloria.
Patris aeterni Verbum caro factum;

5. En grege relicto, Humiles ad cunas,
vocati pastores approperant.
Et nos ovanti gradu festinemus;

6. Aeterni Parentis splendorem aeternum,
velatum sub carne videbimus.
Deum infantem, pannis involutum;

7. Pro nobis egenum et foeno cubantem,
piis foveamus amplexibus.
Sic nos anamtem quis non redamaret?

8. Stella duce, Magi, Christum adorantes,
aurum, thus, et myrrham dant munera.
Jesu infanti corda praebeamus;




Adaptação para o português pelo Frei Emilio Scheid:
Cristãos, vinde todos, com alegres cantos.
Oh! Vinde, oh! Vinde até Belém.
Vede nascido, vosso rei eterno.

Oh! Vinde adoremos, Oh! Vinde adoremos,
Oh! Vinde adoremos o salvador!

Humildes pastores deixam seu rebanho
e alegres acorrem ao rei do céu.
Nós, igualmente, cheios de alegria.

O Deus invisível de eterna grandeza,
sob véus de humildade, podemos ver.
Deus pequenino, Deus envolto em faixas!

Nasceu em pobreza, repousando em palhas.
O nosso afeto lhe vamos dar. Tanto amou-nos!
Quem não há de amá-lo?

Tradução direta (a partir do inglês):
1. Venham os fiéis, alegres e triunfantes
Venham, venham até Belém
Que ele venha e permaneça
O regente de todos os anjos

Refrão:
Ó vinde, adoremos
Ó vinde, adoremos
Ó vinde, adoremos, ó senhor

2. Deus dos deuses, luz da luz
Gestado dentre as visceras
Deus verdadeiro, genitor por direito.

3. Cantem, coros dos anjos, cantem em exultação!
Cantem, todos os cidadãos dos céus:
Glória a Deus, glória ao mais alto!

4. Sim, o Senhor, nos O saudamos, nascido nesta manhã,
Jesus, o Salvador a que se dá glórias,
Palavra de Deus, agora se fez carne.

5. Vejam como os pastores se aproximam da manjedoura,
deixam seus rebanhos para a noite.
Nós também O adoramos em coração.

6. Todos devemos vir vê-lo,  A eterna luz do Pai
agora revelou-se em carne.
Deus quer que o encontrmeos, um Deus recem nascido.

7. Criança, por nós pecadores, pobre, na majedoura,
devemos abraçar o Sagrado, com amor e admiração.
Quem poderia não amáLo, tendo ele nos amado tão intensamente.

8. Reis Magos guiados pela estrela vieram adorar Cristo,
oferecer incenso, ouro e mirra.
Nós, ao menino Cristo, trazemos nosso coração em oblação.

-- autoria própria

17 de out de 2013

O Senhor acompanha seus pregadores

* leitura indicada para a Festa de São Lucas, celebrada em 18 de Outubro

São Lucas Apóstolo
Nosso Senhor e Salvador, caríssimos irmãos, ora por palavras, ora por fatos nos adverte. Com efeito, até mesmo suas ações são preceitos, porque, ao fazer alguma coisa em silêncio, dá-nos a conhecer aquilo que devemos realizar. Eis que envia dois a dois seus discípulos a pregar, já que são dois os preceitos da caridade, o amor de Deus e do próximo.

O Senhor envia a pregar os discípulos dois a dois, indicando-nos com isso, sem palavras, que quem não tem caridade para como próximo de modo algum deverá receber o ofício da pregação.

Muito bem se diz que os enviou diante de sua face a toda cidade e local aonde ele iria (Lc 10,1). O Senhor vai atrás de seus pregadores, porque a pregação vai à frente e depois chega o Senhor à morada de nosso espírito, quando as palavras de exortação o precedem e, por elas, o espírito acolhe a verdade. Por este motivo Isaías fala a esses pregadores: Preparai o caminho do Senhor, aplanai as veredas de nosso Deus (Is 40,3). E o Salmista: Abri caminho para aquele que sobe do ocaso (Sl 67,5 Vulg.). Sobe do ocaso o Senhor porque onde morreu na paixão, ali mesmo, ao ressurgir, manifestou sua maior glória. Sobe do ocaso, porque a morte que aceitou, resurgindo, calcou-a aos pés. Portanto abrimos caminho ao que sobe do ocaso, quando nós vos pregamos sua glória para que, vindo ele próprio depois, vos ilumine com a presença de seu amor.

Ouçamos o que ele diz quando envia pregadores: A messe é grande, são poucos os operários. Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie operários a seu campo (Mt 9,37-38). Para grande messe, poucos operários, coisa que não sem imensa tristeza podemos repetir; pois embora haja quem escute as palavras boas, falta quem as diga. Eis que o mundo está cheio de sacerdotes, todavia, raramente se vê um operário na messe de Deus; porque aceitamos, sim, o ofício sacerdotal, mas não cumprimos o dever do ofício.

Mas pensai, irmãos caríssimos, pensai no que foi dito: Rogai ao Senhor da messe que envie operários a seu campo. Pedi vós por nós, para que possamos fazer coisas dignas de vós; que a língua não se entorpeça por não querer exortar; tendo recebido o encargo de pregar, não vá nosso silêncio condenar-nos diante do justo Juiz.

-- Das Homilias sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno, papa (século VI)

14 de out de 2013

Das causas da derrota do Comunismo Europeu

De entre os numerosos fatores que concorreram para a queda dos regimes opressivos, alguns merecem uma referência particular. O fator decisivo, que desencadeou as mudanças, é certamente a violação dos direitos do trabalho. Não se pode esquecer que a crise fundamental dos sistemas, que pretendem exprimir o governo ou, melhor, a ditadura do proletariado, inicia com os grandes movimentos verificados na Polónia, em nome da solidariedade. São as multidões dos trabalhadores a tornar ilegítima a ideologia, que presume falar em nome deles, a reencontrar e quase redescobrir expressões e princípios da doutrina social da Igreja, a partir da experiência difícil do trabalho e da opressão que viveram.

Merece, portanto, ser sublinhado o fato de, quase por todo o lado, se ter chegado à queda de semelhante bloco ou império, através de uma luta pacífica que lançou mão apenas das armas da verdade e da justiça. Enquanto o marxismo defendia que somente extremando as contradições sociais, através do embate violento, seria possível chegar à sua solução, as lutas que conduziram ao derrube do marxismo insistem com tenácia em tentar todas as vias da negociação, do diálogo, do testemunho da verdade, fazendo apelo à consciência do adversário e procurando despertar nele o sentido da dignidade humana comum.

Parecia que a configuração europeia, saída da segunda guerra mundial e consagrada no Tratado de Ialta, só poderia ser abalada por outra guerra. Pelo contrário, foi superada pelo empenho não violento de homens que sempre se recusaram a ceder ao poder da força, e ao mesmo tempo souberam encontrar aqui e ali formas eficazes para dar testemunho da verdade. Isto desarmou o adversário, porque a violência sempre tem necessidade de se legitimar com a mentira, ou seja, de assumir, mesmo se falsamente, o aspecto da defesa de um direito ou de resposta a uma ameaça de outrem 54. Agradeço a Deus ainda por ter sustentado o coração dos homens durante o tempo da difícil prova, e pedimos-Lhe que um tal exemplo possa valer em outros lugares e circunstâncias. Que os homens aprendam a lutar pela justiça sem violência, renunciando tanto à luta de classes nas controvérsias internas, como à guerra nas internacionais.

O segundo fator de crise é com certeza a ineficácia do sistema econômico, que não deve ser considerada apenas como um problema técnico, mas sobretudo como consequência da violação dos direitos humanos à iniciativa, à propriedade e à liberdade no setor da economia. A este aspecto está ainda associada a dimensão cultural e nacional: não é possível compreender o homem, partindo unilateralmente da economia, nem ele pode ser definido simplesmente com base na sua inserção de classe. A compreensão do homem torna-se mais completa, se o virmos enquadrado na esfera da cultura, através da linguagem, da história e das posições que ele adota diante dos acontecimentos fundamentais da existência, tais como o nascimento, o amor, o trabalho, a morte. No centro de cada cultura, está o comportamento que o homem assume diante do mistério maior: o mistério de Deus. As culturas das diversas Nações constituem fundamentalmente modos diferentes de enfrentar a questão sobre o sentido da existência pessoal: quando esta questão é eliminada, corrompem-se a cultura e a vida moral das Nações. Por isso, a luta pela defesa do trabalho une-se espontaneamente a esta, a favor da cultura e dos direitos nacionais.

A verdadeira causa das mudanças, porém, está no vazio espiritual provocado pelo ateísmo, que deixou as jovens gerações privadas de orientação e induziu-as em diversos casos, devido à irreprimível busca da própria identidade e do sentido da vida, a redescobrir as raízes religiosas da cultura das suas Nações e a própria Pessoa de Cristo, como resposta existencialmente adequada ao desejo de bem, de verdade, e de vida que mora no coração de cada homem. Esta procura encontrou guia e apoio no testemunho de quantos, em circunstâncias difíceis e até na perseguição, permaneceram fiéis a Deus. O marxismo tinha prometido desenraizar do coração do homem a necessidade de Deus, mas os resultados demonstram que não é possível consegui-lo sem desordenar o coração.

O homem, criado para a liberdade, leva em si a ferida do pecado original, que continuamente o atrai para o mal e o torna necessitado de redenção. Esta doutrina é não só parte integrante da Revelação cristã, mas tem também um grande valor hermenêutico, enquanto ajuda a compreender a realidade humana. O homem tende para o bem, mas é igualmente capaz do mal; pode transcender o seu interesse imediato, e contudo permanecer ligado a ele. A ordem social será tanto mais sólida, quanto mais tiver em conta este fato e não contrapuser o interesse pessoal ao da sociedade no seu todo, mas procurar modos para a sua coordenação frutuosa. Com efeito, onde o interesse individual é violentemente suprimido, acaba substituído por um pesado sistema de controle burocrático, que esteriliza as fontes da iniciativa e criatividade. Quando os homens julgam possuir o segredo de uma organização social perfeita que torne o mal impossível, consideram também poder usar todos os meios, inclusive a violência e a mentira, para a realizar. A política torna-se então uma religião secular, que se ilude de poder construir o Paraíso neste mundo. Mas qualquer sociedade política, que possui a sua própria autonomia e as suas próprias leis nunca poderá ser confundida com o Reino de Deus. A parábola evangélica da boa semente e do joio (cf. Mt 13, 24-30. 36-43) ensina que apenas a Deus compete separar os filhos do Reino e os filhos do Maligno, e que o julgamento terá lugar no fim dos tempos. Pretendendo antecipar o juízo para agora, o homem substitui-se a Deus e opõe-se à sua paciência.

Graças ao sacrifício de Cristo na Cruz, a vitória do Reino de Deus está garantida de uma vez para sempre; todavia, a condição cristã comporta a luta contra as tentações e as forças do mal. Somente no fim da história é que o Senhor voltará glorioso para o juízo final (cf. Mt 25, 31), com a instauração dos novos céus e da nova terra (cf. 2 Ped 3, 13; Ap 21, 1), mas, enquanto perdura o tempo, a luta entre o bem e o mal continua, mesmo no coração do homem.

O que a Sagrada Escritura nos ensina sobre os caminhos do Reino de Deus tem valor e incidência na vida das sociedades temporais, que — segundo quanto ficou dito — pertencem às realidades do tempo, com sua dimensão de imperfeito e provisório. O Reino de Deus presente no mundo sem ser do mundo, ilumina a ordem da sociedade humana, enquanto a força da graça a penetra e a vivifica. Assim notam-se melhor as exigências de uma sociedade digna do homem, são retificados os desvios, é reforçada a coragem do agir em favor do bem. A esta tarefa de animação evangélica das realidades humanas estão chamados, juntamente com todos os homens de boa vontade, os cristãos, e de modo especial os leigos.

-- Da Encíclica Centesimus Annus, João Paulo II (01 de Maio de 1991)

13 de out de 2013

A participação na Eucaristia nos santifica


São Fulgêncio de Ruspe (468-533) foi bispo no
norte da África - Cártago, atual Tunísia. Enquanto
esteve exilado dedicou-se a escrever cartas
que demonstravam os erros de hereges arianos,
como Fabiano.
Atesta o santo Apóstolo que se realiza na oblação dos sacrifícios aquilo mesmo que nosso Salvador ordenou, ao dizer: Porque o Senhor Jesus, na noite em que iria ser entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo que é dado por vós; fazei isto em minha memória. Do mesmo modo, tomou também o cálice, depois de ter ceado, dizendo: Este é o cálice da nova Aliança em meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em minha memória. Pois todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor até que venha(1Cor 11,23-26).

Por esta razão se oferece o sacrifício, a fim de anunciar a morte do Senhor e realizar o memorial daquele que entregou a vida por nós. Ele mesmo diz: Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos (Jo 15,13). Portanto, tendo Cristo morrido por nós por amor, quando no momento do sacrifício fazemos memória de sua morte, rogamos que nos conceda a caridade pela vinda do Espírito Santo. Pedimos e suplicamos que, pela mesma caridade com que Cristo aceitou ser crucificado por nós, também nós, pela graça do Espírito Santo, possamos considerar o mundo como crucificado e a nós, crucificados para o mundo. Imitando a morte de nosso Senhor, como Cristo que morreu para o pecado, morreu uma vez por todas e porque vive, vive para Deus (cf. Rm 6,10-11), nós igualmente caminhemos com vida nova (Rm 6,4). E recebido o dom da caridade, morramos para o pecado e vivamos para Deus.

Pois a caridade de Deus foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5,5). Com efeito, a própria participação no corpo e sangue do Senhor, quando tomamos seu pão e bebemos de seu cálice, já nos persuade a morrer para o mundo e a ter nossa vida escondida com Cristo em Deus, crucificando nossa carne com seus vícios e concupiscências (cf. Cl 3,3; Gl 5,24).

Acontece então que todos os fiéis que amam a Deus e ao próximo, embora não bebam do cálice do sofrimento corporal, bebem do cálice da caridade do Senhor. Por ele inebriados, mortificam seus membros ainda na terra e, revestidos do Senhor Jesus Cristo, não cuidam do corpo de maneira a satisfazer-lhe os desejos; não contemplam as coisas visíveis, mas as invisíveis. Desta forma se bebe o cálice do Senhor quando se conserva a santa caridade. Sem ela, mesmo que alguém lance o corpo ao fogo para ser queimado, de nada lhe aproveita. Mas pelo dom da caridade é-nos concedido ser na realidade aquilo mesmo que celebramos misticamente no sacrifício.

-- Do Tratado Contra Fabiano, de São Fulgêncio de Ruspe, bispo (século VI)

11 de out de 2013

Isaias 12: Exultação do povo redimido

Do Livro do Profeta Isaias (Is 12, 1-6)
1. E dirás naquele tempo: Eu vos rendo graças, Senhor, porque vos irritastes; vossa cólera se aplacou e vós me consolastes.
2. Eis o Deus que me salva, tenho confiança e nada temo, porque minha força e meu canto é o Senhor, e ele foi o meu salvador.
3. Vós tirareis com alegria água das fontes da salvação,
4. e direis naquele tempo: Louvai ao Senhor, invocai o seu nome, fazei que suas obras sejam conhecidas entre os povos; proclamai que seu nome é sublime.
5. Cantai ao Senhor, porque ele fez maravilhas, e que isto seja conhecido por toda a terra.
6. Exultai de gozo e alegria, habitantes de Sião, porque é grande no meio de vós o Santo de Israel.

O hino que acabamos de proclamar faz parte, como cântico de alegria, da Liturgia das Laudes.Ele constitui uma espécie de selo de algumas páginas do Livro de Isaías que se tornaram célebres devido à sua leitura messiânica. Trata-se dos capítulos 6-12, normalmente chamados "o livro do Emanuel". De fato, no centro daqueles oráculos proféticos domina a figura de um soberano que, apesar de pertencer à histórica dinastia davídica, revela contornos transfigurados e recebe títulos gloriosos:  "Conselheiro-Admirável, Deus-Poderoso, Pai-Eterno, Príncipe-da-Paz" (Is 9, 5).

A figura concreta do rei de Judá que Isaías promete como filho e sucessor de Acaz, o soberano daquela época muito afastado dos ideais davídicos, é o sinal de uma promessa mais nobre:  a do rei-Messias que realizará em plenitude o nome de "Emanuel", isto é, "Deus-connosco", tornando-se a presença divina perfeita na história humana. Compreende-se facilmente, então, como o Novo Testamento e o cristianismo tenham intuído naquele perfil real a fisionomia de Jesus Cristo, Filho de Deus que se fez homem solidário connosco.

O hino a que agora fazemos referência (cf. Is 12, 1-6) é considerado pelos estudiosos, tanto pela qualidade literária como pelo seu tom geral, uma composição posterior em relação ao profeta Isaías, que viveu no século oitavo antes de Cristo. É quase uma citação, um texto à maneira de salmo, talvez de uso litúrgico, que é inserido neste ponto para servir de conclusão ao "livro do Emanuel". Com efeito, recorda alguns dos seus temas:  a salvação, a confiança, a alegria, a acção divina, a presença entre o povo do "Santo de Israel", expressão que indica tanto a transcendente "santidade" de Deus, como a sua proximidade amorosa e activa, com a qual o povo de Israel pode contar.

Quem canta é uma pessoa que fez uma triste experiência, sentida como um ato do juízo divino.
Mas agora a provação terminou; a cólera do Senhor é substituída pelo sorriso, com a disponibilidade para salvar e confortar.

As duas estrofes do hino marcam quase dois momentos. No primeiro (cf. vv. 1-3), aberto pelo convite para rezar:  "Dirás naquele dia", domina a palavra "salvação", repetida três vezes e aplicada ao Senhor:  "Este é o Deus da minha salvação... Ele foi a minha salvação... as fontes da salvação".

Recordamos, entre outras coisas, que o nome de Isaías como o de Jesus contém a raíz do verbo hebraico ylsa", que faz alusão à "salvação". Por conseguinte, o nosso orante tem a certeza indiscutível de que na origem da libertação e da esperança se encontra a graça divina. É significativo observar que ele faz referência implícita ao grande acontecimento salvífico do êxodo da escravidão do Egipto, porque menciona as palavras do cântico de libertação entoado por Moisés:  "O Senhor é a minha força e a minha glória" (Ex 15, 2).

A salvação dada por Deus, capaz de suscitar a alegria e a confiança também no dia obscuro da provação, é representada pela imagem, clássica na Biblia, da água:  "Tirareis com alegria água das fontes da salvação" (Is 12, 3). O pensamento vai espiritualmente para a cena da mulher samaritana, quando Jesus lhe oferece a possibilidade de ter em si mesma uma "nascente de água a jorrar para a vida eterna" (Jo 4, 14).

A este propósito, Cirilo de Alexandria comenta de maneira sugestiva:  "Jesus chama água viva ao dom vivificante do Espirito, o único através do qual a humanidade, apesar de ter sido completamente abandonada, como os troncos nos montes, seca e privada, devido às insídias do diabo, de todas as espécies de virtudes, é restituida à antiga beleza da natureza... O Salvador chama água à graça do Espirito Santo, e se alguém participar d'Ele, terá em si mesmo a nascente dos ensinamentos divinos, de forma que não terá mais necessidade dos conselhos dos outros, e poderá exortar todos os que tem sede da Palavra de Deus. Eram assim, quando estavam nesta vida e na terra, os santos profetas, os apóstolos e os sucessores do seu ministério. A seu respeito foi escrito:  tirareis água com alegria da fonte da salvação" (Comentário ao Evangelho de João).


Infelizmente a humanidade abandona com frequência esta nascente que tira a sede a todo o ser da pessoa, como realça com amargura o profeta Jeremias:  "Abandonou-Me, a Mim, fonte de águas vivas, para cavar cisternas, cisternas rotas, que não podem reter as águas" (Jer 2, 13). Também Isaías, poucas páginas atrás, tinha exaltado "as águas de Siloé que correm tranquilas", simbolo do Senhor presente em Sião, e ameaçara o castigo da inundação das "águas abundantes e impetuosas do rio Eufrates" (Is 8, 6-7), símbolo do poder militar e económico e da idolatria, águas que, então, fascinavam Judá, mas que o teriam submergido.

Outro convite "Naquele dia direis" começa a segunda estrofe (cf. Is 12, 4-6), que é um apelo continuo ao louvor jubiloso em honra do Senhor. Multiplicam-se os imperativos para cantar:  "Louvai, invocai, manifestai, proclamai, cantai, bradai, exultai".

No centro do louvor está uma única profissão de fé em Deus salvador, que intervém na história e está ao lado da sua criatura, partilhando as suas vicissitudes:  "O Senhor... fez obras maravilhosas... Quão grande no meio de ti é o Santo de Israel" (vv. 5.6). Esta profissão de fé tem também uma função missionária:  "narrai as suas obras entre os povos... anunciai-as em toda a terra" (vv. 4.5). A salvação obtida deve ser testemunhada no mundo, de maneira que toda  a  humanidade  corra  para  aquelas nascentes de paz, de alegria e de liberdade.

-- Papa João Paulo II, na audiência de 17 de Abril de 2002

7 de out de 2013

Nossa Senhora de Czestochowa

A virgem negra de Czestochowa 
A Nossa Senhora de Czestochowa é a mais venerada relíquia na Polônia, sendo um dos símbolos nacionais. Trata-se na verdade de um ícone de Nossa Senhora, pintado em data incerta e seriamente danificado por uma invasores hussitas em 1430. Pior ainda, no trbalho de restauração, a imagem foi ainda mais afetada, não restando outra solução a não ser apagá-la totalmente e repintá-la, aproveitando a base, que segundo a tradição, fora trabalhada por São José ou o próprio Cristo quando ainda trabalhava com seu pai. 

A imagem é um tradicional ícone da Igreja Oriental, com Nossa Senhora carregando o Menino Jesus. Diferencia-se por Maria ter duas cicatrizes no lado direito do rosto. Segundo a lenda, infiéis teriam tentando rasgar a imagem, apunhalando duas vezes, quando viram que o corte sangrava. Assustados, deixaram a imagem no Monastério.

É certo que um incêndio escureceu os pigmentos da imagem, tornando-a Nossa Senhora Negra de Czestochowa. 

A imagem é creditada pela miraculosa salvação do Monastério de Jasna Gora (Montes Claros) durante a invasão sueca em 1655. O exército sueco avançou até o Monastério, onde monges e voluntários alternavam orações e batalha, sustentando o cerco por um mês e alterando o curso da guerra. 

Atualmente o Monastério é o centro de peregrinações mais importante do país, sendo uma tradição no país visitá-la uma vez ao ano.

-- autoria própria

1 de out de 2013

Amar até morrer de amor

* Neste trecho da sua autobiografia, Santa Teresa narra como descobriu estar com tuberculose, uma doença fatal naquela época.

Sabíeis, Madre, que sempre desejei ser santa, mas ai! sempre constatei, quando me comparei com os santos, haver entre eles e mim a mesma diferença que existe entre uma montanha cujos cimos se perdem nos céus, e o obscuro grão de, areia pisado pelos transeuntes. Em vez de desanimar, disse a mim mesma: Deus não poderia inspirar desejos irrealizáveis, portanto posso, apesar da minha pequenez, aspirar à santidade; não consigo crescer, devo suportar-me como sou, com todas as minhas imperfeições; mas quero encontrar o meio de ir para o Céu por uma via muito direta, muito curta, uma pequena via, totalmente nova. 

Estamos num século de invenções. Agora, não é mais preciso subir os degraus de uma escada, nas casas dos ricos, um elevador a substitui com vantagens. Eu também gostaria de encontrar um elevador para elevar-me até Jesus, pois sou pequena demais para subir a íngreme escada da perfeição. Procurei então, na Sagrada Escritura a indicação do elevador, objeto do meu desejo, e li estas palavras da eterna sabedoria: Quem for pequenino, venha cá; ao que falta entendimento vou falar. Vim, então, adivinhando ter encontrado o que procurava e querendo saber, ó Deus, o que faríeis ao pequenino que respondesse ao vosso chamado. Continuei minhas pesquisas e eis o que achei: Como alguém que é consolado pela própria mãe, assim eu vos consolarei. Sereis amamentados, levados ao colo, e acariciados sobre os joelhos! Ah! nunca palavras mais suaves, mais melodiosas, vieram alegrar minha alma. Vossos braços são o elevador que deve elevar-me até o Céu, ó Jesus! Para isso, eu não preciso crescer, pelo contrário, preciso permanecer pequena, que o venha a ser sempre mais. Ó meu Deus, superastes minha expectativa e quero cantar as vossas misericórdias. "Vós me instruístes, ó Deus, desde a minha juventude, e até agora proclamo as vossas maravilhas; e também até a velhice, até à canície continuarei a publicá-las". Qual será para mim essa idade avançada? Parece-me que poderia ser agora, pois dois mil anos não são mais que vinte aos olhos do Senhor... que um dia... Ah! não creiais, Madre querida, que vossa filha deseja vos deixar... não creiais que considera como graça maior a de morrer na aurora em vez de no crepúsculo. O que aprecia, o que deseja unicamente é agradar a Jesus... Agora que Ele parece aproximar-se dela, a fim de atraí-Ia para a sua glória,, vossa filha se alegra. Há muito compreendeu que Deus não precisa de ninguém (menos ainda dela que dós outros) para realizar o bem.na terra. 

No ano passado, Deus permitiu-me o consolo de observar o jejum da quaresma em todo o seu rigor. Nunca me sentira tão forte e essa força manteve-se até a Páscoa. Porém, na Sexta-Feira santa, Jesus deu-me a esperança de ir vê-lo em breve, no Céu... Oh! como me é suave essa lembrança! Após ter ficado junto ao túmulo até a meia-noite, regressei à nossa cela, mas apenas coloquei a cabeça no travesseiro senti um fluxo subir, subir borbulhando até meus lábios. Não sabia de que se tratava, mas pensei que, talvez, fosse morrer e minha alma estava inundada de alegria... Mas, como nossa lâmpada estava apagada, disse a mim mesma que era preciso esperar o amanhecer para ter certeza da minha felicidade, pois parecia-me ser sangue que eu tinha vomitado. O amanhecer chegou logo. Ao acordar, pensei imediatamente ter alguma coisa alegre a constatar. Perto da janela, pude verificar meu pressentimento... Ah! minha alma ficou repleta de uma grande consolação; estava intimamente persuadida de que Jesus, no dia do aniversário da sua morte, queria me deixar perceber um primeiro chamado. Era como um suave e longínquo murmúrio que me anunciava a chegada do Esposo... 

Teresa em Julho de 1896, qundo já sabia
desde a Páscoa estar com tuberculose.
Assisti com grande fervor à Oração da Manhã e ao capítulo dos perdões. Estava ansiosa para que chegasse a minha vez, a fim de poder, pedindo perdão, confidenciar a vós, querida Madre, minha esperança e minha felicidade. Acrescentei que não tinha dor nenhuma (o que era verdade) e pedi-vos, Madre, que nada me désseis de particular. De fato, tive o consolo de passar a Sexta-feira Santa como eu queria. Nunca as austeridades do Carmelo pareceram-me tão deliciosas. A esperança de chegar ao Céu arrebatava-me de alegria. À noite desse feliz dia, foi preciso repousar, mas Jesus deu-me o mesmo sinal de que meu ingresso na vida eterna estava próximo... 

Gozava então de uma fé tão viva, tão clara, que o pensamento do Céu era toda a minha felicidade, não podia crer na existência de ímpios desprovidos de fé. Acreditava que falavam contra o próprio pensamento ao negar a existência do Céu, do belo Céu onde o próprio Deus quer ser a recompensa eterna. Nos dias tão alegres do tempo pascal, Jesus fez-me sentir haver almas sem fé que, por abuso das graças, perdem esse precioso tesouro, fonte das únicas alegrias puras e verdadeiras. Permitiu que minha alma fosse invadida pelas mais densas trevas e que a idéia do Céu, tão suave para mim, não passasse de tema de combate e tortura... Essa provação não devia durar apenas alguns dias, algumas semanas, só devia desaparecer na hora marcada por Deus e... essa hora não chegou ainda... Gostaria de poder expressar o que sinto, mas creio ser impossível. É preciso ter andado por esse túnel escuro para compreender a escuridão. 

Oh Madre! nunca senti tão bem como o Senhor é compassivo e misericordioso, só me mandou essa provação no momento em que tive a força para suportá-la, creio que, mais cedo, ela me teria mergulhado no desânimo... Agora, subtrai-me tudo o que poderia se encontrar de satisfação natural no desejo que tinha do Céu... Madre querida parece-me que agora nada me impede de levantar vôo, pois não tenho mais grandes desejos a não ser o de amar até morrer de amor... 

-- Da Autobiografia de Santa Teresinha do Menino Jesus, virgem (século XIX)

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