20 de ago de 2017

Sobre o dogma da Assunção de Nossa Senhora em Corpo e Alma.



Introdução 

Deus munificentíssimo (generoso), que tudo pode, e cujos planos de providência são cheios de sabedoria e de amor, entremeia na vida os povos e dos indivíduos as dores com as alegrias, para que por diversos caminhos e de várias maneiras tudo coopere para o bem dos que o amam (cf. Rm 8,28).


De fato, Deus olhou para a virgem Maria com particular amor, quando chegou o tempo de Jesus Cristo tornar-se homem (Gl 4,4) atuou de forma que refulgissem com perfeita harmonia os privilégios e prerrogativas que concedera a Maria. A Igreja sempre reconheceu a muitas graças concedidas a nossa mãe e durante o decurso dos séculos sempre procurou estudá-la melhor. Nestes nossos tempos refulgiu com luz mais clara o privilégio da assunção corpórea da Mãe de Deus.

Esse privilégio foi ainda mais destacado quando o nosso predecessor, Pio IX, definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição. De fato esses dois dogmas estão estreitamente conexos entre si. Cristo com a própria morte venceu a morte e o pecado, e todo aquele que pelo batismo de novo é gerado, sobrenaturalmente, pela graça, vence também o pecado e a morte. Porém Deus, por lei ordinária, só concederá aos justos o pleno efeito desta vitória sobre a morte, quando chegar o fim dos tempos. Por esse motivo, os corpos dos justos corrompem-se depois da morte, e só no último dia se juntarão com a própria alma gloriosa.

Mas Deus quis excetuar dessa lei geral a bem-aventurada virgem Maria. Por um privilégio inteiramente singular ela venceu o pecado com a sua concepção imaculada; e por esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem teve de esperar a redenção do corpo até ao fim dos tempos.

Testemunho dos fiéis

Desde tempos remotos aparecem-nos testemunhos, indícios e vestígios desta fé comum da Igreja; fé que se manifesta cada vez mais claramente. Os fiéis souberam por meio da Sagrada Escritura que a virgem Maria, durante a sua peregrinação terrestre, levou vida cheia de cuidados, angústias e sofrimentos; e que, segundo a profecia do santo velho Simeão, uma espada de dor lhe traspassou o coração, junto da cruz do seu divino Filho e nosso Redentor. E do mesmo modo, não tiveram dificuldade em admitir que, à semelhança do seu unigênito Filho, também a excelsa Mãe de Deus morreu. Mas essa persuasão não os impediu de crer expressa e firmemente que o seu sagrado corpo não sofreu a corrupção do sepulcro, nem foi reduzido à podridão e cinzas aquele tabernáculo do Verbo divino. Testemunham esta mesma fé os inumeráveis templos consagrados a Deus em honra da assunção de nossa Senhora, e as imagens neles expostas à veneração dos fiéis, que mostram aos olhos de todos este singular triunfo da santíssima Virgem. Nem se esquecer que no rosário de nossa Senhora, há um mistério proposto à nossa meditação, que, como todos sabem, é consagrado à assunção da santíssima Virgem ao céu. 

Testemunho da liturgia

De modo se manifesta esta fé dos pastores e dos fiéis, com a festa litúrgica da assunção celebrada desde tempos antiquíssimos no Oriente e no Ocidente. Nos livros litúrgicos em que aparece a festa da Dormição ou da Assunção de santa Maria, encontram-se expressões que concordam em referir que, quando a virgem Mãe de Deus passou deste exílio para o céu, por uma especial providência divina, sucedeu ao seu corpo um privilégio especial. É o que se afirma, por exemplo, no Sacramentário do Papa Adriano I: "É digna de veneração, Senhor, a festividade deste dia, em que a santa Mãe de Deus sofreu a morte temporal; mas não pode ficar presa com as algemas da morte aquela que gerou no seu seio o Verbo de Deus encarnado, vosso Filho, nosso Senhor". O Sacramentário Galicano chama a esse privilégio de Maria, "inexplicável mistério, tanto mais digno de ser proclamado, quanto é único entre os homens, pela assunção da virgem". E na liturgia bizantina assim fala: "Deus, Rei do universo, concedeu-vos privilégios que superam a natureza; assim como no parto vos conservou a virgindade, assim no sepulcro vos preservou o corpo da corrupção e o conglorificou pela divina translação".

Testemunho dos santos Padres

São João Damasceno, ao comparar a assunção gloriosa da Mãe de Deus com as suas outras prerrogativas e privilégios, exclama: "Convinha que aquela que no parto manteve ilibada virgindade conservasse o corpo incorrupto mesmo depois da morte". Para citar outro exemplo, São Germano de Constantinopla julgava que a incorrupção do corpo da virgem Maria Mãe de Deus, e a sua assunção ao céu são corolários da sua maternidade divina e santidade singular: "Vós, como está escrito, aparecestes 'em beleza'; o vosso corpo virginal é totalmente santo, totalmente casto, totalmente domicílio de Deus de forma que até por este motivo foi isento de desfazer-se em pó; foi, sim, transformado, enquanto era humano, para viver a vida altíssima da incorruptibilidade; mas agora está vivo, gloriosíssimo, incólume e participante da vida perfeita". Outro escritor antiquíssimo assevera por sua vez: "A gloriosíssima Mãe de Cristo, Deus e Salvador nosso, dador da vida e da imortalidade, foi glorificada e revestida do corpo na eterna incorruptibilidade, por aquele mesmo que a ressuscitou do sepulcro e a chamou a si duma forma que só ele sabe".

São Alberto Magno afirma: "É evidente que a bem-aventurada Mãe de Deus foi assunta ao céu em corpo e alma sobre os coros dos anjos. E cremos que isto é absolutamente verdadeiro". No século XV, São Bernardino de Sena explica que a semelhança entre a divina Mãe e o divino Filho, no que respeita à perfeição e dignidade de alma e corpo - não nos permite pensar que a Rainha celestial possa estar separada do Rei dos céus e exige absolutamente que Maria "só deva estar onde está Cristo". Portanto, é muito conveniente e conforme à razão que tanto o corpo como a alma do homem e da mulher tenham alcançado já a glória no céu; e, finalmente, o fato de nunca a Igreja ter procurado as relíquias da santíssima Virgem, nem as ter exposto à veneração dos fiéis, constitui um argumento que é "como que uma experiência sensível" da assunção.

São Francisco de Sales afirma que não se pode duvidar que Jesus Cristo cumpriu do modo mais perfeito o divino mandamento que obriga os filhos a honrar os pais. E a seguir faz esta pergunta: "Que filho haveria, que, se pudesse, não ressuscitava a sua mãe e não a levava para o céu?" E São Afonso escreve: "Jesus não quis que o corpo de Maria se corrompesse depois da morte, pois redundaria em seu desdouro que se transformasse em podridão aquela carne virginal de que ele mesmo tomara a própria carne". Padre Suarez completa:  "Os mistérios da graça que Deus operou na virgem Maria não se devem medir pelas leis ordinárias, senão pela onipotência divina".

Fundamento bíblico

Todos esses argumentos e razões dos santos Padres e teólogos apóiam-se, em último fundamento, na Sagrada Escritura. Esta nos apresenta a Mãe de Deus extremamente unida ao seu Filho, e sempre participante da sua sorte. E a vida do Filho acabaria com a vitória completa sobre o pecado e sobre a morte (cf. Rm 5; 6; lCor 15,21-26; 54-57). Assim como a ressurreição gloriosa de Cristo constituiu parte essencial e último troféu desta vitória, assim também a vitória de Maria santíssima, comum com a do seu Filho, devia terminar pela glorificação do seu corpo virginal. Pois, como diz ainda o apóstolo, "quando... este corpo mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá o que está escrito: a morte foi absorvida na vitória" (1Cor 15,14). 

Deste modo, a augustíssima Mãe de Deus, alcançou por fim, como coroa dos seus privilégios, que fosse preservada da corrupção do sepulcro, e que, à semelhança do seu divino Filho, vencida a morte, fosse levada em corpo e alma ao céu, onde refulge como Rainha à direita do seu Filho, Rei imortal dos séculos (cf. 1Tm 1,17).

Definição solene do dogma

Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial.

Pelo que, se alguém, o que Deus não permita, ousar, voluntariamente, negar ou pôr em dúvida esta nossa definição, saiba que naufraga na fé divina e católica. A ninguém, pois, seja lícito infringir esta nossa declaração, proclamação e definição, ou temerariamente opor-se-lhe e contrariá-la. Se alguém presumir intentá-lo, saiba que incorre na indignação de Deus onipotente e dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no ano do jubileu maior, de 1950, no dia 1 ° de novembro, festa de todos os santos, no ano XII do nosso pontificado.

Eu PIO, Bispo da Igreja Católica assim definindo, subscrevi.

* A constituição dogmática Munificentissimus Deus foi publicada pelo Papa Pio XII em uso de sua infalibilidade papal definindo o dogma da Assunção de Nossa Senhora em Corpo e Alma. Este é resumo, o texto completo está disponível no site do Vaticano.


1 de ago de 2017

Sobre o amor a Jesus Cristo

Toda santidade e perfeição consiste no amor a Jesus Cristo, nosso Deus, nosso sumo bem e nosso redentor. É a caridade que une e conserva todas as virtudes que tornam o homem perfeito.

Será que Deus não merece todo o nosso amor? Ele nos amou desde toda a eternidade. “Lembra-te, ó homem, – assim nos fala – que fui eu o primeiro a te amar. Tu ainda não estavas no mundo, o mundo nem mesmo existia, e eu já te amava. Desde que sou Deus, eu te amo”.

Deus, sabendo que o homem se deixa cativar com os benefícios, quis atraí-lo ao seu amor por meio de seus dons. Eis por que disse: “Quero atrair os homens ao meu amor com os mesmos laços com que eles se deixam prender, isto é, com os laços do amor”. Tais precisamente têm sido todos os dons feitos por Deus ao homem. Deu-lhe uma alma dotada, à sua imagem, de memória, inteligência e vontade; deu-lhe um corpo provido de sentidos; para ele criou também o céu e a terra com toda a multidão de seres; por amor do homem criou tudo isso, para que todas as criaturas servissem ao homem e o homem, em agradecimento por tantos benefícios, o amasse.

Mas Deus não se contentou em dar-nos tão belas criaturas. Para conquistar todo o nosso amor, foi ao ponto de dar-se a si mesmo totalmente a nós. O Pai eterno chegou ao extremo de nos dar seu único Filho. Vendo-nos a todos mortos pelo pecado e privados de sua graça, que fez ele? Movido pelo imenso, ou melhor – como diz o Apóstolo – pelo seu demasiado amor, enviou seu amado Filho, para nos justificar e nos restituir a vida que havíamos perdido pelo pecado.

Ao dar-nos o Filho, a quem não poupou para nos poupar, deu-nos com ele todos os bens: a graça, a caridade e o paraíso. E porque todos estes bens são certamente menores do que o Filho, Deus, que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo junto com ele? (Rm 8,32).

-- Das Obras de Santo Afonso Maria de Ligório, bispo (século XVII)

29 de jul de 2017

Jesus, minha alegria


Jesu, meine Freude (Jesus, minha alegria) é um hino alemão escrito por Johan Frank em 1650. O texto foi composto a partir do ponto de vista de um fiel, que para enfrentar os inimigos e vaidades do mundo, conta com a proteção de Cristo para sustentar o seu Espírito em todas circunstâncias, contrastando imagens de tranquilidade e felicidade ao lado de Cristo, com as ameaças do Demônio. Sua inspiração é a Carta aos Romanos 8,1-2;9-11, que fala de Jesus Cristo libertando o homem dos pecados e morte.  


Várias composições foram escritas com base no texto, a mais notável é de Bach, que teria sido escrita para o funeral de Johanna Maria Käsin em 18 de Julho de 1723. É justamente esta a versão do vídeo acima.  

O texto, numa tradução livre, é:

1. Jesus, minha alegria,
alimento do meu coração,
Jesus, meu tesouro!
Ah, por quanto tempo
Meu coração tem sofrido
e te desejado!
Cordeiro de Deus, meu noivo,
Além de Ti, nada no mundo
Deve ser mais desejado por mim.

2. Não há nada de condenável
naqueles que estão em Cristo Jesus,
que não caminham de acordo com a carne,
mas deixam o Espírito conduzir seu caminho.

3. Sob a Tua proteção
Estou a salvo das tempestades,
De todos os inimigos.
Deixe Satanás enraivecido,
Deixe o inimigo bufar de raiva,
Jesus está ao meu lado.
Mesmo que haja raios e trovões,
pecados e o Inferno terrível,
Jesus está me protegendo.

4. A Lei do espírito,
que dá vida à Jesus Cristo,
Fez-me livre da Lei
do pecado e da morte.

5. O velho dragão me desafia,
A vingança da morte me desafia,
O medo também me desafia!
O ódio e o mundo me atacam,
Eu permaneço aqui cantando
Em paz e seguro!
A força de Deus está vigilante,
Céus e terra devem permanecer em silêncio,
Por mais que tentem me aterrorizar.

6. Tu, no entanto, não és de carne,
mas foste moldado pelo Espírito,
O Espírito de Deus vive em ti.
No entanto, quem não tiver o Espírito de Cristo, não é dEle.

7. Longe de todos tesouros,
Tu é meu deleite,
Jesus, minha alegria!
Longe de todas honras vãs,
Eu devo passar longe delas,
Devem permanecer desconhecidas para mim!
Miséria, necessidade, torturas, vergonha e morte,
Embora eu deva sofrer muitas delas,
Não podem me separar de Jesus.

8. Se Cristo estiver em ti,
Então o corpo está morto para o pecado,
Mas vive em ti o Espírito de vida,
Que te manterá na justiça.

9. Boa noite, existência
que deseja o mundo!
Tu não me agradas.
Boa noite, pecados,
Fiquem longe de mim,
Nunca mais retornem a luz!
Boa noite, orgulho e glória!
A ti, vida miserável e corrompida,
Boa noite deve ser dado!

10. Agora que o Espírito de Deus que ressuscitou Jesus dos mortos está sobre ti,
O mesmo que ressuscitou Jesus dos mortos irá fazer teu corpo mortal viver,
pelo poder do Espírito que está sobre ti.

11. Pois agora os espíritos da tristeza,
Estão derrotados pelo Mestre da Alegria,
Jesus que veio a nós.
Para aqueles que amam a Deus,
Mesmo em suas tribulações,
Deve ser pura felicidade.
Mesmo que tenha que suportar a zombaria e vergonha,
Tu estás ao meu lado mesmo no sofrimento,
Jesus, minha alegria.

-- autoria própria
-- tradução livre feita a partir do inglês, não do original alemão.

21 de jul de 2017

Sobre as correntes de oração

Queridos amigas e amigos:
Preocupado com as constantes correntes de oração que me enviam, envolvendo trabalho, prosperidade, anjos, Nossa Senhora e Madre Teresa de Cálcuta, entre outras coisas, comorações lindas, mas sempre condicionando os efeitos a enviar para outras pessoas num período de alguns dias, para que possam continuar circulando, pedi ao Padre Adolfo Franco que me desse sua opinião sobre o assunto. Eis a sua resposta:
“Estas correntes de oração são uma ABERRAÇÃO que vai contra a fé, é querer manipular a Providência de Deus, que por ser Deus atua livremente e que não está sujeito a condições impostas pelos homens, como 'envie a dez pessoas', nem está enviando ameaças, tipo 'se não enviares, acontecerá o contrário e perderá a saúde ou dinheiro'.
E muito ruim que pessoas que deveriam uma formação cristã mais sólida enviem estas correntes: a fé cristão remove estas ameaças e não aceita estes tabus.
Poderia ler, entre outros textos, Deuteronômio 18, 10-12: 'Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos, pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor; e por estas abominações o Senhor teu Deus os lança fora de diante de ti.'
Estas fórmulas se utilizam nas correntes de oração estão, na verdade, convertendo Deus em uma receita: faça isto e obterás tal coisa, se não fizeres, uma maldição te atingirá.
Crer em Deus, sua paternidade e providência, é algo muito diferente. Não se trata de assegurarmos coisas mediante nossos esforços, mas confiar e se deixar conduzir pelas mãos de Deus.".

Um abraço e minhas orações.

-- Carta escrita pelo Padre Javier L. de Guevara, assessor espiritual dos Cursilhos de Cristandade, diocese de Córdoba.

18 de jul de 2017

Tudo lhes acontecia em figura

A ti ensina o Apóstolo que todos os nossos pais estiveram debaixo da nuvem e todos atravessaram o mar e todos, conduzidos por Moisés, foram batizados na nuvem e no mar. Em seguida o mesmo Moisés diz no cântico: Enviaste teu espírito e o mar os cobriu. Nota que nesta passagem dos hebreus pelo mar já se prenuncia a figura do santo batismo, onde perece o egípcio, e liberta-se o hebreu. Não é isto o que diariamente o sacramento nos ensina, a saber, que a culpa é afogada, destruído o erro, e a santidade e toda inocência passam através dele?

Ouves que nossos pais estiveram debaixo da nuvem, a boa nuvem que refresca o ardor das paixões carnais, a boa nuvem que cobre com sua sombra aqueles que o Espírito Santo torna a visitar. Esta boa nuvem, em seguida, veio sobre a Virgem Maria e o poder do Altíssimo a envolveu com sua sombra, ao gerar a redenção do homem. Este milagre realizou-o Moisés em figura. Se, portanto, lá esteve o Espírito em figura, não estará aqui a realidade, já que a Escritura te diz que a lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade nos vieram por Jesus Cristo?

Em Mara a fonte era amarga. Nela Moisés mergulhou um lenho e ela se tornou doce. A água, sem a proclamação da cruz do Senhor, não tem utilidade alguma para a futura salvação. Ao ser, porém, consagrada pelo salutar mistério da cruz, é usada no banho espiritual e no cálice da salvação. À semelhança daquela fonte em que Moisés, isto é, o Profeta, pôs o lenho, também nesta fonte o sacerdote proclama a cruz do Senhor e a água se faz doce para a graça.

Não creias apenas nos teus olhos corporais. Enxerga-se muito melhor o que não se vê, porque o que vemos é transitório, isto é terreno. No entanto, se vemos o que os olhos não alcançam, enxergamos com coração e a mente.
Naaman banha-se no Rio Jordão milagrosamente curando-se da lepra.
Na época pensava-se que doenças eram consequencia de pecados cometidos
pelo doente, quanto mais severa a doença, mais graves os pecados.

Por fim ensina-te o trecho do Livro dos Reis: Naaman era sírio, tinha a lepra e ninguém podia purificá-lo. Então disse-lhe uma menina escrava que em Israel havia um profeta, que o poderia curar da lepra. Tomando consigo ouro e prata, Naaman dirigiu-se ao rei de Israel. Conhecendo o rei o motivo da vinda, rasgou as vestes em sinal de luto e declarou que este pedido tão além do poder real era antes um pretexto para um ataque contra o reino. Mas Eliseu mandou dizer ao rei que lhe enviasse o sírio para que lhe fosse dado conhecer como Deus estava em Israel. Tendo ele chegado, o profeta fez-lhe saber que devia mergulhar sete vezes no rio Jordão. Naaman começou, então, a pensar que melhores eram as águas de sua pátria, onde muitas vezes mergulhara e nunca ficara limpo da lepra e quis voltar, sem obedecer à ordem do profeta. Mas, diante do conselho insistente de seus servos, enfim concordou em banhar-se e, limpo no mesmo momento, compreendeu que não era por virtude da água que se tornara purificado, mas pela graça.

Ora, Naaman duvidou antes de ser curado. Tu, porém, já estás são: não podes duvidar!

-- Do Tratado sobre os Mistérios, de Santo Ambrósio, bispo (século IV)

8 de jul de 2017

É necessário o padre dizer "eu te absolvo" após a Confissão?

A perfeição de todo ser ou ato está relacionada à sua forma. Da mesma forma, um sacramento perfeito tem uma forma perfeita, a forma perfeita dos sacramentos é aquela que torna visível o seu efeito. Ora, o sacramento da penitência consiste na remoçãodo pecado, essa remoção é expressa pelo sacerdote quando diz: Eu te absolvo.  Pois, os pecados são como amarras, segundo aquilo da Escritura: O homem será preso por suas próprias faltas e ligado com as cadeias de seu pecado (Pv 5,22). Portanto é claro que esta é a frase é convenientíssima para ressaltar o que acontece na Penitência, que somos libertos de nossos pecados quando ouvimos: Eu te absolvo.

Esta mesma perfeição de forma é visível em outros sacramentos. A forma do batismo é "Eu te batizo"; e a da confirmação "Eu te assinalo com o sinal da cruz e te confirmo com o crisma da salvação". Estas palavras são acompanhadas pelo uso da matéria, da água e dos santos óleos. No sacramento da Eucaristia, a consagração ocorre também com a ajuda da matéria, o pão e vinho, mas a verdade da consagração é expressa quando o sacerdote diz: "Isto é o meu corpo". Mas o sacramento da penitência não consiste na consagração de matéria nenhuma nem utiliza qualquer matéria santificada; mas antes, na remoção do pecado, quando o sacerdote declara: Eu te absolvo.

Agora vamos discutir alguns argumentos contrários e respondê-los:

1. Se Cristo não disse "Eu te absolvo", porque os sacerdotes usam esta frase?

A frase em questão é tirada das próprias pa­lavras que Cristo disse a Pedro: Tudo o que ligares sobre a terra, será ligado nos céus (Mt 18,18). "Eu te absolvo" é a forma que a Igreja utiliza na absolvição sacramental para indicar que os pecados estão desligados - desvinculados - da pessoa.

2. Nas absolvições dadas em público, o padre não diz "Eu te absolvo".


Objeção: No uso comum, em certas absolvições públicas na Igreja, o celebrante não fala no modo indicativo, dizendo "Eu te absolvo", mas em modo de súplica, dizendo "Que Deus oni­potente tenha misericórdia de vós", ou, "Deus onipo­tente vos dê a absolvição". Ainda, o Papa Leão (I) disse: "não podemos obter o perdão de Deus senão pelas súplicas dos sacerdotes".

Resposta: As absolvições dadas em público são orações voltadas à remissão dos pecados veniais. A oração do sacerdote não está, objetivamente, perdoando os pecados cometidos por cada pessoa, mas pedindo a Deus que os absolva. No sacramento da Penitência há algo mais, os pecados são efetivamente perdoados, e isto é confirmado quando o sacerdote declara "Eu te absolvo".

3. Somente Deus pode absolver os pecados


Objeção: Absolver e perdoar são sinônimos. Como diz Santo Agostinho, somente Deus pode perdoar os pecados, purificar-nos interiormente deles Logo, osacerdote não deveria dizer "Eu te absolvo".

Resposta:  Só Deus, pela sua autoridade, pode perdoar os pecados. Os sacerdotes, através do seu minis­tério, são instrumentos de Deus em todos sacramentos. É a virtude divina que realiza a obra interiormente, realizando aquilo que é visível nos sinais sacramen­tais, suas palavras e gestos. Isto é claro pelo que Cristo disse a Pedro: "Tudo o que desatares sobre a terra, etc."; e também aos discípulos: "Aos que vós perdoardes os pecados, ser-­lhes-ão perdoados" (Jo 20, 23). Eu te absolvo está de acordo com as palavras ditas pelo Senhor quando deu o po­der das chaves. Como o sacerdote absolve na qualidade de ministro, se acrescentam palavras concernentes à primária autoridade de Deus, e são: Eu te absolvo em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo; ou seja, por virtude da paixão de Cristo; ou, por autoridade de Deus. Não sendo porém esse acréscimo determinado pelas palavras de Cristo, como no batismo, isso é deixado ao arbítrio dos sacerdotes.

4. Milagres de cura são realizados por Deus, mas parece que o milagre do perdão dos pecados é realizado pelo sacerdote.


Objeção: Assim como o Senhor deu aos discípulos o poder de absolver dos pecados, tam­bém lhes deu o poder de curar as enfermidades e expulsar os demônios. Ora, para curar os enfermos os Apóstolos não pronunciavam as palavras "Eu te curo", mas ­O Senhor Jesus Cristo te cure. Logo, parece que os sacerdotes, recebendo um poder outorgado por Cristo aos Apóstolos, não devem usar da fórmula - Eu te absolvo; mas - Cristo te dê a absol­vição.


Resposta: Aos Apóstolos não foi dado o poder de, por si mesmos, curarem os en­fermos, mas que estes fossem curados pelas ora­ções deles. Foi-lhes porém conferido o poder de celebrar os sa­cramentos. Por onde, nos sacramentos pode usar o modo indicativo - Eu te absolvo - mas quando curar doenças ou expulsam demônios, falam em forma de súplica - Que Deus te cure. Mas isto não é absoluto, às vezes, pois Pedro ordenou ao coxo - O que tenho isso te douEm nome de Jesus Cristo levanta-te e anda.

5. A absolvição dos pecados seria dependente de uma revelação de Deus, que não ocorre comumente a cada confissão. 


Objeção: Como lemos no Evangelho, antes de Cristo ter dito a Pedro: "Tudo o que ligares sobre a terra, etc.", disse-lhe: "Bem-aventurado és, Simão, filho de João, porque não foi a carne e sangue quem te revelou, mas sim meu Pai, que está nos céus (Mt 16, 17)"Assim, parece que o sacerdote, a quem não foi nenhuma feita revelação, diz presunçosamente "Eu te absolvo".


Resposta: Os sacramentos da Lei Nova não só signi­ficam, mas também realizam o que significam, e isto nos assegura a revelação "geral" da nossa fé, não sendo necessária uma revelação particular a cada sacramento.  Quando o sacerdote batiza alguém, o declara interiormente purificado, por palavras e por atos que não somente significam, mas produzem essa purificação; assim também quando diz  "Eu te absolvo", declara o penitente absolvido, não só significativa, mas também efetivamente.   Tanto no batismo quanto na penitência, o sacerdote age com a certeza da fé. Assim também todos outros sacramen­tos da lei nova produzem por si mesmos um efeito, em virtude da paixão de Cristo. 

Ao penitente que acreditar nesta absolvição, os horizontes se abrem. Como exemplo, Santo Agostinho declara: "Não é vergonhosa nem difícil, depois de perpetrado, mas expiado o adultério, a reconciliação dos cônjuges, quando, pelo poder das chaves do reino dos céus, não se tem mais dúvida sobre a remissão dos pecados".

-- adaptado da Suma Teológica, III parte, questão 84, artigo 3, de São Tomás de Aquino


1 de jul de 2017

A confissão é necessária para a Salvação?

Será a confissão necessária para a Salvação? Não basta apenas confessar os pecados para Deus? Vejamos o que diz São Tomás de Aquino:

Há dois modos de um ato ser necessário à salvação:

  • obrigatório: trata-se de atos sem os quais não se pode alcançar a salvação, como a graça de Cristo e o sacramento do batismo pelo qual renascemos em Cristo. 
  • condicional, como o sacramento da penitência, pois é necessário apenas àqueles que estão em pecado. Conforme diz a Escritura: Assim, Senhor, Deus dos justos, não pediste penitência para os justos, para Abraão, Isaac e Jacó, que não pecaram contra Ti, mas pediste penitência para mim, que sou pecador (*) E na Carta a Tiago: Ora, o pecado, quando tiver sido realizado, gera a morte (Tg 1,5). 

Logo, para alcançar a salvação, é necessário que o pecador seja purificado do pecado, o que não pode ocorrer sem o sacramento da penitência, no qual a virtude da paixão de Cristo, a absolvição do sacerdote e a confissão do pecador cooperam com a graça para perdoar o pecado.

Por onde é claro que o sacramento da penitência é necessário à salvação, depois do pecado; assim como o remédio é necessário ao corpo de quem caiu em grave doença.

1. Mas arrepender-se de seus pecados não é suficiente?

O Salmo 126, 5-6 diz que "Os que semeiam entre lágrimas, colherão com alegria. Na ida, caminham chorando, os que levam a semente. Na volta, virão com alegria, quando trouxerem os seus feixes". E sobre esta tristeza que salva, São Paulo escreveu aos Coríntios: Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte (2Co 7,10). Logo, o arrependimento sem a penitência bastaria à salvação.

Este argumento é parcial, pois apenas a boa intenção e o arrependimento não são suficientes para libertar do pecado; se bastassem, não haveria causa para tristezas. Mas quando a boa intenção é vencida pelo pecado, não pode ser restituída plenamente sem a penitência, pois a tristeza com os pecados remete ao passado, a absolvição dos pecados impulsiona o futuro.

A caridade não é suficiente para apagar os pecados?

A Escritura diz: A caridade cobre todos os delitos (Pv 10,12). E a seguir: Os pecados purificam-se pela misericórdia e pela fé (Pv 16,6). Ora, se o objetivo deste sacramento é só purificar os pecados, tendo caridade, fé e misericórdia, podemos alcançar a salvação, mesmo sem o sacramento da penitência.

Nem a fé, nem a caridade nem a misericórdia podem, sem a penitência, tirar-nos do estado de pecado. Pois a caridade não exige que nos arrependamos da ofensa cometida contra o amigo, nem que nos reconciliemos com ele. A fé requer que, pela virtude da paixão de Cristo, nos justifiquemos dos nossos pecados. E por fim também a misericórdia pede que reparemos pela penitência a nossa miséria, em que nos precipitou o pecado, segundo aquilo da Escritura: o pecado é a vergonha dos povos (Pv 14,34). Donde o outro dito da Escritura: deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão (Mt 5:24).

Cristo não perdoou sem confissão ou penitência?

Os sacramentos da Igreja começaram com a instituição de Cristo. Ora, como lemos no Evangelho, Cristo perdoou a mulher adúltera, sem penitência (cf Jo 8,1-11). Logo, parece não ser a penitência necessária à salvação.

Pela excelência do poder, que só Cristo tinha, é que concedeu à mulher adúltera o efeito do sacramento da penitência - a remissão dos pecados - sem esse sacramento; embora não sem a penitência interior, que operou nela pela graça.

-- adaptado da Suma Teológica, III parte, questão 84, artigo 5, de São Tomás de Aquino

 (*) Este trecho de 2Cr 11 não está incluído na Bíblia Católica atual, mas faz parte de várias versões históricas, é um apêndice na Vulgata, provavelmente usada por São Tomás de Aquino, e ainda é mantido na versão luterana. 

26 de jun de 2017

Regras sobre casamento de mesmo sexo

Recentemente Dom Thomas Paprocki, bispo de Springfield, estado de Illinois, publicou regras para sua diocese acerca de casamentos do mesmo sexo. Embora as normas sejam simples e dentro da expectativa considerando a doutrina da Igreja, Dom Thomas teve a coragem de abordar o tema de maneira clara, mesmo sabendo que a patrulha politicamente correta iria criticá-lo. 
Bispo Thoomas Paprocki

Dom Thomas tem um doutorado em Lei Canônica pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, além de ser formado em direito civil pela DePaul University e ter trabalhado muitos anos advogando para clientes pobres. Portanto, além de bispo, é extremamente qualificado para escrever um documento deste tipo.

É importante dizer que o documento não discrimina ninguém, nem é contra uma categoria de pessoas (homessexuais, lésbicas, LBGT, etc...) pois concentra-se em um ato público, de livre escolha das partes, o casamento de mesmo sexo. Todos somos pecadores e a Igreja está esperando de portas abertas para acolher a todos. 

O documento original está em inglês, a tradução é minha iniciativa e responsabilidade. Para comentários adicionais, sugiro outro canonista, Dr Edward Peters - também em inglês. Por fim, o documento restringe-se à Diocese de Springfield, cada bispo local pode estabelecer suas próprias regras considerando a situação local.

DECRETO SOBRE QUESTÕES PASTORAIS RELATIVAS AO "CASAMENTO" DO MESMO SEXO

Embora tenha sido o ensinamento claro e consistente da Igreja Católica desde sua fundação por Nosso Senhor Jesus Cristo que Deus instituiu o matrimônio como uma união entre um homem e uma mulher que estabelecem entre eles um relacionamento para toda vida, ordenado para o bem dos esposos, procriação e educação dos filhos (cf. Mt 19,4-6; Gaudium et Spes, n.48; CIC, n. 1055). Jesus Cristo afirmou o casamento como um espaço privilegiado na humanidade que a sociedade cristã elevou a dignidade de sacramento. Logo, a Igreja tem não somente a autoridade, mas também a séria obrigação de reafirmar seus ensinamentos sobre casamento e preservar o sagrado valor do matrimônio.  

Embora revertendo uma tendência milenar de reconhecer legal e judicialmente casamentos como somente possível entre um homem e um homem, "casamentos" do mesmo sexo são agora reconhecidos pela legislação e decisões judiciais nos Estados Unidos da América. 

Portanto é minha responsabilidade como bispo diocesano orientar o povo de Deus confiado a mim com caridade e sem faltar com a verdade, eu, Reverendo Thomas John Paprocki, pela graça de Deus e favor da Santa Sé, Bispo de Springfield em Illinois, promulgo as seguintes normas como política diocesana quanto ao casamento de mesmo sexo e questões pastorais:

1. Solenidades e bençãos de casamentos do mesmo sexo

a. Nenhum membro do clero ou outra pessoa agindo como funcionário ou representante da Diocese deve ajudar ou colaborar em solenidades ou benção de casamentos do mesmo sexo, incluindo prover serviços, acomodações, vantagens, bens ou privilégios para tais eventos.

b. Nenhuma propriedade ou prédio da Igreja, incluindo mas não limitado à paróquias, escolas, instituições de saúde ou caridade, ordens ou qualquer outro local dedicado, consagrado ou utilizado para celebrações católicas, pode ser utilizado para solenidades ou bençãos de casamento do mesmo sexo ou receber festas relacionadas a tais eventos.

c. Para não dar aparência de aprovação, nenhum ítem ou símbolo da fé católica, incluindo mas não limitado a vasos sagrados, vestimentas ou livros litúrgicos, podem ser usados em solenidades ou bençãos de casamentos do mesmo sexo.
2. Recebimento da Santa Comunhão

a. Dada a natureza objetivamente imoral da relação em um casamento do mesmo sexo, pessoas em tais uniões não devem se apresentar para a Sagrada Eucaristia, nem devem ser admitidas para tal (CIC, n. 915-916).

b. Pastores que conheçam tal situação devem orientar privadamente pessoas nestas circunstâncias, chamando-os à conversão e aconselhando-as a não se apresentarem para receber a Sagrada Eucaristia até  restaurarem sua comunhão com a Igreja através do Sacramento da Reconciliação.

c. Em perigo de morte, a pessoa vivendo publicamente em um casamento de mesmo sexo pode receber a Eucaristia na forma de viático se expressar arrependimento por seus pecados (CIC, n. 921).

3. Sacramentos de Iniciação

a. Crianças com pais vivendo um casamento de mesmo sexo podem ser batizadas se houver esperanças bem fundamentadas de que serão criadas dentro da fé católica (CIC, n.868). O pastor deve julgar cada situação e determinar se é apropriado realizar uma celebração pública de batismo.

b. Crianças com pais vivendo um casamento de mesmo sexo que sejam qualificadas e predispostas a aceitar a fé católica podem receber  Primeira Eucaristia e o Sacramento da Confirmação.

c. Pessoas vivendo publicamente em um casamento de mesmo sexo não podem servir como padrinhos de Batismos ou Confirmação.

d. Pessoas vivendo publicamente em um casamento de mesmo sexo não devem ser admitidas no Ritual de Iniciação Cristã de Adultos (RICA) ou receber o Sacramento da Confirmação até se afastarem do relacionamento objetivamente imoral.

4. Ritos funerários

a. Exceto se houverem dado sinais de arrependimento antes da morte, pessoas falecidas que viveram abertamente um casamento de mesmo sexo dando escândalo aos fiéis devem ser privados de ritos funerários eclesiais. Em caso de dúvida, o pastor local ou administrador paroquial deve consultar o ordinário local, cujo julgamente deve ser seguido (CIC, n. 1184).

5. Escolas católicas, catequéticas e programas de formação

a. Crianças vivendo com pessoas em um casamento de mesmo sexo podem ser admitidas em escolas católicas, catequéticas ou programas de formação. No entanto, os pais ou responsáveis legais devem ser informados que seu(s) filho(s) receberão os ensinamentos da Igreja quanto à casamento e sexualidade em sua totalidade e deverão assinar os contratos utilizados pela escola (*).

Finalmente, recordo a todos ministros da Igreja que mesmo sendo claros e diretos sobre os ensinamentos da Igreja, nosso atividade pastoral deve sempre ser respeitosa, amorosa e sensível com todos irmãos e irmãs na fé, como era Jesus Cristo, o Bom Pastor e eterno modelo. Advirto que qualquer pessoa culpada de violar as normas acima pode ser punida com justiça (CIC, n. 1315, 1339, 1347 e 1389).

Publicado na Curia da Diocese de Sppringfield, Illinois, em 12 de Junho, no Ano 2017 de Nosso Senhor.

Assinado pelo Bispo Reverendo Thomas Paprocki e pelo notário eclesial.

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(*): nos EUA, os contratos de escolas católicas costumam explicitar que durante o horário escolar as crianças participarão de missas, catequeses de Primeira Comunhão e Crisma, retiros e outros momentos de oração adequados à idade. Várias destas atividades não são opcionais.

CIC = Catecismo da Igreja Católica

1 de jun de 2017

O martírio de São Justino

Aqueles homens santos foram presos e conduzidos ao prefeito de Roma, chamado Rústico. Estando eles diante do tribunal, o prefeito Rústico disse a Justino: “Em primeiro lugar, manifesta tua fé nos deuses e obedece aos imperadores”. Justino respondeu: “Não podemos ser acusados nem presos, só pelo fato de obedecermos aos mandamentos de Jesus Cristo, nosso Salvador”.

Rústico indagou: “Que doutrinas professas?” E Justino: “Na verdade, procurei conhecer todas as doutrinas, mas acabei por abraçar a verdadeira doutrina dos cristãos, embora ela não seja aceita por aqueles que vivem no erro”.

O prefeito Rústico prosseguiu: “E tu aceitas esta doutrina, grande miserável?” Respondeu Justino: “Sim, pois a sigo como verdade absoluta”.

O prefeito indagou: “Que verdade é esta?” Justino explicou: “Adoramos o Deus dos cristãos, a quem consideramos como único criador, desde o princípio, artífice de toda a criação, das coisas visíveis e invisíveis: adoramos também o Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, que os profetas anunciaram vir para o gênero humano como mensageiro da salvação e mestre da boa doutrina. E eu, um simples homem, considero insignificante tudo o que estou dizendo para exprimir a sua infinita divindade, mas reconheço o valor das profecias que previamente anunciaram aquele que afirmei ser o Filho de Deus. Sei que eram inspirados por Deus os profetas que vaticinaram a sua vinda entre os homens”.

Rústico perguntou: “Então, tu és cristão?” Justino afirmou: “Sim, sou cristão”.

O prefeito disse a Justino: “Ouve,tu que és tido por sábio e julgas conhecer a verdadeira doutrina: se fores flagelado e decapitado, estás convencido de que subirás ao céu?” Disse Justino: “Espero entrar naquela morada, se tiver de sofrer o que dizes. Pois sei que para todos os que viverem santamente está reservada a recompensa de Deus até o fim do mundo inteiro”.

O prefeito Rústico continuou: “Então, tu supões que hás de subir ao céu para receber algum prêmio em retribuição”? Justino respondeu-lhe: “Não suponho, tenho a maior certeza”.

O prefeito Rústico declarou: “Basta, deixemos isso e vamos à questão que importa, da qual não podemos fugir e é urgente. Aproximai-vos e todos juntos sacrificai aos deuses”. Justino respondeu: “Ninguém de bom senso abandona a piedade para cair na impiedade”. O prefeito Rústico insistiu: “Se não fizerdes o que vos foi ordenado, sereis torturados sem compaixão”. Justino disse: “Desejamos e esperamos chegar à salvação através dos tormentos que sofrermos por amor de nosso Senhor Jesus Cristo. O sofrimento nos garante a salvação e nos dá confiança perante o tribunal de nosso Senhor e Salvador, que é universal e mais terrível que o teu”.

O mesmo também disseram os outros mártires: “Faze o que quiseres; nós somos cristãos e não sacrificaremos aos ídolos”.

O prefeito Rústico pronunciou então a sentença: “Os que não quiseram sacrificar aos deuses e obedecer ordem do imperador, depois de flagelados, sejam conduzidos para sofrer a pena capital, segundo a norma das leis”. Glorificando a Deus, os santos mártires saíram para o local determinado, onde foram decapitados e consumaram o martírio proclamando a fé no Salvador.

-- Das Atas do martírio dos santos Justino e seus companheiros (século II)

29 de mai de 2017

Santa Julia Billiart

Muitos católicos foram contrários à Revolução Francesa, que perseguiu a Igreja e destruiu muitos templos. Talvez a mais surpreendente destes católicos seja Santa Julia Billiart que, mesmo paralítica, desafiou as autoridades de sua cama.

A juventude com sua família

Ela nasceu em 12 de Julho de 1751, em Cuvilly, França, foi a sexta filha do casala Jean-François e Marie-Louise. Aos sete anos já conhecia o catecismo e ensinava-o às suas amigas da mesma idade. Passou poucos anos na escola do vilarejo, pois logo teve que trabalhar para ajudar a família. Com a permissão especial do pároco, recebeu primeira Eucaristia e Crisma aos nove anos e aos 14 fez um voto de castidade.

Aos 22 anos enquanto trabalhava, a loja dos pais foi assaltada, um dos ladrões atirou em seu pai. Traumatizada, ela rapidamente perdeu o comando das pernas, tornando-se paralítica, o que na época consistia em ficar confinada a sua cama. E da sua cama, ela continuou catequisando as crianças da cidade.

A revolta contra a Igreja cismática

E da sua cama, ela continuou catequisando as crianças da cidade. Em 1789 a Revolução Francesa começou a modificar o país e perseguir a Igreja. Em 1790, um padre que havia jurado obediência à Revolução, não ao Papa, foi nomeado pelo governo para o vilarejo de Cuvilly. Tal padre logo percebeu como Julia era reconhecida por todos e avisou que iria visitar-lhe, mas ela recusou-se a recebê-lo, e aos poucos convenceu toda população a boicotá-lo. Nesta época, ela escreveu a uma amiga:

Eu te felicito por teres a oportunidade de ser útil à salvação das alamas, mas ande com cuidado pois a circunstâncias atuais fazem o trabalho ser particularmente difícil. Dizes que te parece melhor ser cismática que estar sem nenhuma religião. Pois pense bem sobre o assunto, pois nãoo devemos conduzir nosso rebanho ao erro. Se conduzirmos nossas ovelhas a um invasor, as colocaremos longe da salvação.

Todas estas boas pessoas que estão impossibilitadas de ouvir seus verdadeiros pastores, não serão punidas por isso. É melhor que continuem sua vida sem receber instrução adequada, até mesmo sem Missas. Deus irá enviar um anjo dos céus para auxilia-las, Ele não deixará que pereçam.  

As autoridades decidiram então prender Júlia, que teve que fugir escondida numa carroça de feno para a cidade de Compiègne. Em 1793 teve um visão. Aos pés de uma cruz, ela viu um grupo de mulheres vestindo roupas estranhas e escutou uma voz que dizia: "Eis as filhas que te darei num Instituto que será marcado com a minha cruz."

As irmãs de Nossa Senhora

No fim do tempo do Terror, mudou-se para Amiens, onde conheceu Maria Luísa Francisca Blin de Boudon, Viscondessa de Gizaincourt, mulher muito inteligente e culta que seria sua amiga íntima e colaboradora. Ela também havia sido perseguida pelo governo e sua família salvou-se da morte quando o líder revolucionário Robespierre foi morto e o governo mudou de rumo. A viscondessa e algumas amigas começaram a reunir-se em torno da cama de Júlia, que lhes ensinou como aprofundar sua vida interior, dedicar-se seriamente à uma vida em comunidade e auxílio aos pobres.

Em 1803, sob o patrocínio do Bispo de Amiens, uma fundação foi organizada com o objetivo de auxiliar crianças pobres, em especial as meninas. Foi o início do Instituto das Irmão de Nossa Senhora (Notre Dame). Iniciaram cuidando de oito órfãs, Júlia e Françoise lidarevam o grupo. No anos seguinte, as três primeira irmãs fizeram seus votos.

Tendo Júlia como sua superiora, a nova ordem estabeleceu uma boa reputação graças a dedicação das irmãs. Madre Josefina, ex-vincondessa, garantia que todas irmãs tivessem boa formação para poder ensinar adequadamente as crianças, além de gerenciar as finanças da ordem. Um aspecto original para a época foi não diferenciar irmãs ordenadas e leigas, colocando todas a trabalhar de maneira igual em favor das crianças. Isto quebrava uma tradição de muitos séculos, que reservava às irmãs ordenadas os cargos superiores da ordem e relegava os trabalhos diários às irmãs leigas. 

As irmãs abriam escolas para as crianças pobres, que nada podiam pagar, e academias para as crianças ricas, que pagavam em dobro em para sustentar as mais pobres. Rapidamente tinham centenas de crianças pobres que foram retiradas das ruas, lnde estariam sujeitas as muitas crueldades do mundo. 

Em 1809, o Bispo de Amiens, instigado por um abade mais tradicionalista, resolveu que a ordem deveria restringir-se a atuar na sua diocese e alterar a regra para a maneira mais tradicional das ordens monásticas. Sabendo que havia crianças pobres em todo país e que não fazia sentido restringir o chamado de Deus a uma diocese, ela não aceitou as condições do Bispo, que decidiu por expulsá-las de Amiens. Júlia teve que transferir a sede do Instituto para a Diocese de Namur, na Bélgica. 

A cura da paralisia

No ano seguinte, Padre Varin que assistia as necessidades espirituais do grupo, ordenou que fizessem uma novena em honra do Sagrado Coração de Jesus, mas não lhes disse a intenção. No último dia da novena, o padre dirigiu-se à Júlia e ordenou que se pusesse de pé, pois era necessário que ela andasse para que a obra prosseguisse. Obediente, ela deu seus primeiros passos depois de 22 anos de paralisia.

Nos anos seguintes, Madre Júlia fundou 15 conventos, fez 120 viagens e manteve intensa correspondência com suas irmãs. Em uma destas cartas escreveu:

Embora Deus possa nos parecer severo, lembre-se que é sempre um Pai infinitamente bom, inteligente e amoroso. Ele nos guia por diferentes caminhos para que possamos alcançar Seus objetivos. E sejamos honestas, minha querida amiga, não é verdade que muitas vezes atribuímos à nós o que é obra de Deus? Então é para nosso bem que experimentemos um certo abandono de Deus. Assim podemos agir como crianças no escuro, pegamos firme na mão do Pai e nos deixamos guiar por Ele. 

Em 1815, a Bélgica foi o centro da Guerra Napoleônica, mas os conventos das irmãs de Notre-Dame salvaram-se ilesos. Em janeiro de 1616, Irmã Júlia caiu doente, falecendo em 8 de Abril de 1816, em Namur. 

Canonização

Santa Júlia Ballart foi canonizada em 13 de Maio de 1906 pelo Papa Pio X e canonizada em 22 de Junho de 1969 pelo Papa Paulo VI. Atualmente as irmãs estão presentes em 17 países, 5 continentes. incluindo o estado do Pará, no Brasil. 

Site da ordem (em inglês): http://www.sndden.org/

* autoria própria


21 de mai de 2017

Cristo verdadeiramente ressuscitou?

Há cinco diferentes argumentos que são utilizados para questionar a Ressurreição de Cristo: 

1. Os anjos poderiam ter feito o mesmo que Cristo fez
Depois da sua ressurreição, Cristo não manifestou nada aos discípulos que também não pudessem os anjos manifestar ou fazer, quando aparecem aos homens, pois os anjos frequentemente se mostravam aos homens em forma humana, com eles falavam, conviviam e comiam como se verdadeiramente fossem homens. Tal o lemos na Escritura quando refere que Abraão deu hospitalidade a anjos; e que um anjo levou e reconduziu a Tobias. E contudo não tem corpo real a que estejam unidos naturalmente. o que é necessário para a ressurreição. 

RESPOSTA: Embora cada uma das provas, em particular, não bastasse para manifestar a ressurreição de Cristo, contudo todas tomadas simultaneamente a manifestam de modo perfeito, sobretudo pelo testemunho da Escritura, pelas palavras dos anjos e também pela afirmação mesma de Cristo confirmada por milagres. Quanto aos anjos que apareceram, não afirmavam que fossem homens como Cristo se afirmou verdadeiramente homem. O anjo disse a Tobias: Quando eu estava convosco, a vós parecia-vos que eu comia e bebia convosco, mas eu sustento-me de um manjar invisível. Segundo Santo Agostinho, o corpo ressucitado fica isento não do poder, mas da necessidade de comer. E São Beda completa: Cristo comeu por poder e não por necessidade.

2. Cristo parecia humano
Certas manifestações de Cristo foram contrárias a um corpo glorioso, como comer, beber e conservar as cicatrizes das chagas. Logo, não parce que Cristo tenha ressuscitado de forma gloriosa e perfeita, pois seu corpo ainda guardava fraquezas humanas.

RESPOSTA: Como dissemos Cristo se serviu de várias provas para manifestar a sua verdadeira natureza humana; e de outras para mostrar a sua natureza gloriosa. É certo que a condição da natureza humana, considerada em si mesma, no estado da vida presente, contraria à condição da glória, segundo o Apóstolo: Semeia-se em vileza, ressuscitará em glória. Por isso diz São Gregório, há dois fatos muito contraditórios aos olhos da razão humana: Cristo conservar, depois da ressurreição, o seu corpo simultaneamente incorruptível e capaz de ser tocado. Mas não há razão para aceitar apenas os aspectos humanos do corpo ressucitado de Cristo e não aceitar os aspectos gloriosos do mesmo corpo.

3. Nem todos podiam tocar a Cristo
O corpo de Cristo depois da ressurreição não era tal que pudesse se tocado pelos mortais; por isso ele próprio disse a Madalena: Não me toques porque ainda não subi a meu Pai. Logo, não era conveniente que, para manifestar a verdade da .sua ressurreição, se deixasse tocar por todos.

RESPOSTA: Como adverte Santo Agostinho, o Senhor disse: Não me toques porque ainda não subi a meu Pai, por que Madalena, chorando-o como homem, só carnalmente cria nele, enquanto Cristo preferia que fosse considerado na sua unidade com o Pai, para que quem nEle tocasse, acreditasse nEle de modo espitual. Ou como o explica São Crisóstomo, essa mulher queria tratá-lo como o Cristo antes da Paixão, esquecia-se da grandeza do seu Salvador; pois, o corpo de Cristo tinha-se revestido de uma glória incomparável. Era como se lhe dissesse: Não penses que ainda vivo uma vida mortal. Se ainda na terra me vês, é porque ainda não subi a meu Pai; mas dentro em pouco para ele subirei. 

Também disse para que essa mulher figurasse a Igreja formada pelos gentios, que só acreditou em Cristo quando ele subiu ao Pai. Porque, no seu senso íntimo, quem assim o considera, crê que de certo modo Cristo, subindo ao Pai, subiu a quem o reconhece como seu igual.  

4. O corpo de Cristo não era glorioso
Dentre os dotes do corpo glorificado o mais importante é a luminosidade. Ora, desse não tem Cristo não nenhuma prova nos Evangelhos desta luz especial. 

RESPOSTA: Como diz Santo Agostinho, o Senhor ressurgiu com seu corpo glorificado; mas não quis aparecer assim glorioso aos discípulos, porque os olhos a ele não podiam suportar a grande glória. Pois, antes de ter morrido por nós e ressurgido, quando foi da transfiguração no monte, já os discípulos não puderam contemplá-lo; com maior razão não poderiam fitar o corpo do Senhor glorificado. 

Devemos também considerar que, depois da ressurreição, o Senhor queria sobretudo mostrar que era o mesmo que tinha morrido. O que poderia ficar grandemente impedido se lhes manifestasse a glória do seu corpo. Antes da Paixão a fim de que os discípulos não o desprezassem pelas humilhações dela, quis Cristo mostrar-lhes a glória da sua majestade, revelada principalmente pela glória do corpo, Por isso, antes da Paixão, manifestou aos discípulos a sua glória refulgente; depois da ressurreição, por outros indícios.


5. Os Evangelhos se contradizem quanto ao testemunho dos anjos
Os anjos são apresentados como testemunhas da ressurreição, mas os Evangeliistas contam histórias diferentes. Assim, Mateus nos mostra o anjo sobre a pedra revolvida e Marcos, no interior mesmo do túmulo, quando as mulheres nele entraram. Além disso, esses dois evangelistas nos falam de um só anjo; ao passo que João, de dois, sentados; e Lucas, de dois também, mas de pé. Logo, parecem inconvenientes os testemunhos da ressurreição.

RESPOSTA: Como diz Agostinho, podemos, com Mateus e Marcos, entender que as mulheres viram um anjo, supondo que o foi quando entraram no túmulo, isto é, num certo espaço cercado por um muro de pedras, e aí viram o anjo sentado na pedra revolvida do sepulcro, como refere Mateus; isto é, sentado à direita, como requer Marcos. Em seguida, enquanto examinavam o lugar onde tinha colocado o corpo do Senhor, viram os dois anjos, primeiro, sentados, no dizer de João, e depois levantados, de modo que pareciam estar de pé, como relata Lucas.

-- adaptado da Suma Teológica, Tertia Pars, questão 54, artigo 6, de São Tomás de Aquino.

As provas de que Cristo verdadeiramente ressuscitou

Cristo manifestou a sua ressurreição de dois modos: pelo testemunho e por provas ou sinais. 

Primeiro serviu-se de duplo testemunho para manifestar a ressurreição aos discípulos, e nenhum deles pode ser recusado. 

  • Os anjos anunciaram a ressurreição às mulheres, como o narram todos os evangelistas.  
  • Outro é o seu próprio testemunho, pois Ele afirma sua ressurreição.

Quanto às provas, também foram suficientes para declarar a sua verdadeira ressurreição, mesmo enquanto gloriosa. Ora, que a sua ressurreição foi verdadeira ele o demostrou com seu corpo que:

Cristo comendo com seus apóstolos após a pesca milagrosa. 
  • era um corpo verdadeiro e real, e não um corpo fantástico ou rarefeito, como o ar. E isso o mostrou deixando que o tocassem. Por isso, ele próprio o disse: Apalpai e vede, que um espírito não tem carne nem ossos, como vós vedes que eu tenho
  • tinha um corpo humano. deixando verem os discípulos a sua verdadeira figura. que contemplavam com os olhos. 
  • era o corpo identicamente o mesmo que antes tinha, mostrando-lhes as cicatrizes das chagas. Cristo diz, no Evangelho: Olha para as minhas mãos e pés, porque sou eu mesmo

De outro modo, mostrou-lhes a verdade da sua ressurreição quanto à alma, de novo unida ao corpo, de três maneiras diferentes:

  • pela nutrição, comendo e bebendo com os discípulos, como lemos no Evangelho. 
  • pelos sentidos, quando respondia às interrogações dos discípulos e saudava os presentes, mostrando assim que via e ouvia. 
  • pela inteligência, pois os discípulos com ele falavam e Cristo explicava suas dúvidas falando sobre as Escrituras. 

E para nada faltar a essa perfeita manifestação, revelou também a sua natureza divina pelo milagre feito na pesca maravilhosa e, além disso, por ter subido ao céu à vista dos discípulos. Pois, como diz o Evangelho, ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu, a saber, o Filho do homem,que está no céu. 

E também manifestou a glória da sua ressurreição aos discípulos por ter entrado numa sala estando as portas fechadas. Tal o que diz Gregório: "O Senhor deu a tocar o seu corpo, que entrava estando as portas fechadas, para mostrar que, depois da ressurreição, tinha a mesma natureza mas com uma glória diferente". Semelhantemente, também foi por uma propriedade da glória, que de súbito desapareceu-Ihes de diante dos olhos, na frase do Evangelho; pois, assim mostrava que tinha o poder de deixar-se ver ou não, e isso é uma propriedade do corpo glorioso, como dissemos.

* No próximo post, Santo Agostinho rebate as dúvidas que ainda possam existir acerca da ressurreição de Cristo.

-- adaptado da Suma Teológica, Tertia Pars, questão 54, artigo 6, de São Tomás de Aquino.


17 de mai de 2017

Os cristãos no mundo

São Paulo pregando em Atenas, de Rafael (1515)
Os cristãos não se diferenciam dos outros homens nem pela pátria nem pela língua nem por um gênero de vida especial. De fato, não moram em cidades próprias, nem usam linguagem peculiar, e a sua vida nada tem de extraordinário. A sua doutrina não procede da imaginação fantasista de espíritos exaltados, nem se apoia em qualquer teoria simplesmente humana, como tantas outras.

        Moram em cidades gregas ou bárbaras, conforme as circunstâncias de cada um; seguem os costumes da terra, quer no modo de vestir, quer nos alimentos que tomam, quer em outros usos; mas o seu modo de viver é admirável e passa aos olhos de todos por um prodígio. Habitam em suas pátrias, mas como de passagem; têm tudo em comum como os outros cidadãos, mas tudo suportam como se não tivessem pátria. Todo país estrangeiro é sua pátria e toda pátria é para eles terra estrangeira. Casam-se como toda gente e criam seus filhos, mas não rejeitam os recém-nascidos. Têm em comum a mesa, não o leito.

        São de carne, porém, não vivem segundo a carne. Moram na terra, mas sua cidade é no céu. Obedecem às leis estabelecidas, mas com seu gênero de vida superam as leis. Amam a todos e por todos são perseguidos. Condenam-nos sem os conhecerem; entregues à morte, dão a vida. São pobres, mas enriquecem a muitos; tudo lhes falta e vivem na abundância. São desprezados, mas no meio dos opróbrios enchem-se de glória; são caluniados, mas transparece o testemunho de sua justiça. Amaldiçoam-nos e eles abençoam. Sofrem afrontas e pagam com honras. Praticam o bem e são castigados como malfeitores; ao serem punidos, alegram-se como se lhes dessem a vida. Os judeus fazem-lhes guerra como a estrangeiros e os pagãos os perseguem; mas nenhum daqueles que os odeiam sabe dizer a causa do seu ódio.

        Numa palavra: os cristãos são no mundo o que a alma é no corpo. A alma está em todos os membros do corpo; e os cristãos em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, mas não provém do corpo; os cristãos estão no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível é guardada num corpo visível; todos veem os cristãos, pois habitam no mundo, contudo, sua piedade é invisível. A carne, sem ser provocada, odeia e combate a alma, só porque lhe impede o gozo dos prazeres; o mundo, sem ter razão para isso, odeia os cristãos precisamente porque se opõem a seus prazeres.

        A alma ama o corpo e seus membros, mas o corpo odeia a alma; também os cristãos amam os que os odeiam. Na verdade, a alma está encerrada no corpo, mas é ela que contém o corpo; os cristãos encontram-se detidos no mundo como numa prisão, mas são eles que abraçam o mundo. A alma imortal habita numa tenda mortal; os cristãos vivem como peregrinos em moradas corruptíveis, esperando a incorruptibilidade dos céus. A alma aperfeiçoa-se com a mortificação na comida e na bebida; os cristãos, constantemente mortificados, veem seu número crescer dia a dia. Deus os colocou em posição tão elevada que lhes é impossível desertar.

-- Da Carta a Diogneto, autor desconhecido (século II)

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